nº 5 / V. 3
Julho - Dezembro 2002
Artigos
Alforrias e etnicidade no Rio de Janeiro oitocentista: notas de pesquisa
Este artigo trata dos padrões de alforrias vigentes no Rio de Janeiro Oitocentista. Detecta o duplo movimento representado pela passagem das manumissões pagas para as gratuitas, e o concomitante predomínio dos africanos entre os escravos que alcançavam o mundo da liberdade. Busca as explicações para ambos os fenômenos e aponta para procedimentos metodológicos que eventualmente permitem melhor abordar a questão.
Afogando em nomes: temas e experiências em história econômica
O texto expõe preocupações temáticas do grupo de história econômica (séculos XVII-XIX), sob minha orientação, no LIPHIS e no PPGHIS. É dada especial atenção para os seguintes temas: império português, hierarquia social e processos de mudanças na sociedade colonial. O texto termina por apresentar questões metodológicas de pesquisa debatidas no grupo. Várias das idéias a seguir são hipóteses de investigações ainda em curso e, portanto, sujeitas a reparos.
Do selvagem convertível
A atitude de tolerância frente à alteridade indígena e a representação do índio tupinambá docilmente “convertível” contidas no relato do capuchinho Claude d’Abbeville, Histoire de la Mission... en l’isle de Maragnan (1614), são claramente tributárias do livro do huguenote Jean de Léry, Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil (1578). O capuchinho parafraseia o huguenote em várias passagens, mostrando o índio como objeto de análise “etnográfica”, sem excluí-lo — como faz Léry — da possibilidade de salvação. Provavelmente, Claude d’Abbeville responde, desta forma, às expectativas do público francês, num contexto de exortação à colonização do Maranhão e de propaganda da obra apostólica da Ordem dos Capuchinhos.
Dom Sebastião contra Napoleão: a guerra sebástica contra as tropas francesas
O artigo analisa a sobrevivência do sebastianismo em Portugal no início do século XIX, a partir dos escritos que provocaram a chamada “guerra sebástica”, travada paralelamente às guerras contras as tropas de Napoleão Bonaparte.
O Brasil de Rugendas nas edições populares ilustradas
O presente texto procura analisar, no mercado francês de imagens reproduzidas em larga escala, a inserção de um pequeno conjunto de imagens sobre o Brasil produzidas em primeiro lugar por Johan Moritz Rugendas no período que se sucedeu à independencia política do país. A relação entre as imagens escolhidas, os procedimentos utilizados nas suas produções, o público ao qual endereçavam-se e o mercado no qual se inseriam possibilita delinear a diversidade de usos e de sentidos que se fazem possíveis nesse momento em que os procedimentos técnicos não somente reproduzem as imagens, mas lhes imprimem uma potência antes desconhecida, tanto no que se refere à sua circulação quanto à proliferação de seus sentidos, das atividades e dos valores que passam a gerar.
Dom Joaquim Xavier Curado e a política bragantina para as províncias platinas (1800-1808)
O artigo ressalta a política externa bragantina para a região do Rio da Prata na época da chegada da corte portuguesa ao Brasil. Analisa a “missão” de Joaquim Xavier Curado como agente secreto da Coroa portuguesa nas províncias platinas no período de 1800 a 1808.
Entre amadorismo e profissionalismo: as tensões da prática histórica no século XIX
O presente artigo discute dois diferentes projetos de constituição da escrita histórica no século XIX a partir especialmente da experiência francesa, importante modelo referencial para a constituição da disciplina no espaço acadêmico brasileiro. Ele apresenta resultados parciais de uma pesquisa realizada com acervos documentais franceses a partir da bolsa de pós-doutoramento concedida pela Capes no período 1999-2000.
Modernidade, identidade e suicídio: o “judeu” Stefan Zweig e o “mulato” Eduardo de Oliveira e Oliveira
O objetivo deste ensaio é trazer ao debate historiográfico o desafio de se enfrentar o tema do racismo e dos racialismos constitutivos da modernidade através do imaginário racial brasileiro, desde os anos 1930. Para este fim, sugiro que a apreensão da ambivalência identitária no Brasil vem se constituindo em importante alternativa para se compreender as especificidades da modernidade brasileira em face dos imperativos identitários da modernidade européia e norte-americana. Pretende-se mostrar, através de dois personagens suicidas, o “judeu” Stefan Zweig e o “mulato” Eduardo de Oliveira e Oliveira, os paradoxos da construção e da representação de identidades étnico-raciais na modernidade brasileira.
A Cristandade medieval entre o mito e a utopia
Apresentaremos neste ensaio três temas para a reflexão: em primeiro lugar, discutiremos a hipótese sobre o caráter eminentemente religioso da ideologia na cristandade medieval. Em seguida, ressaltaremos o papel da “reforma gregoriana” no século XI para a reestruturação desta nova cristandade; por último analisaremos a reação particular que os “reformadores gregorianos” criaram com a temporalidade enquanto categoria antropológica. Cremos que entre o mito e a utopia, os “reformadores gregorianos” tentaram criar, por vezes sem muito êxito, uma fronteira entre uma escatologia oficial e uma escatologia apocalíptica e/ou milenarista, com o designio sobretudo de fazer prevalecer a ordem na sociedade/cristandade.
Mãe, mestra e guia: uma análise da iconografia de Santa'Anna
A Virgem Maria e sua mãe, Anna, foram as santas mais populares no Brasil ao longo dos séculos XVII e XVIII. A devoção a esta “gloriosa matriarca” é, com efeito, um reflexo do culto mariano. Anna veio até a ser associada com algumas virtudes da Mãe de Cristo. Três tipos de representação artística ilustram esta associação ao retratarem Anna como mãe, guia, e, sobretudo, mestra. Este trabalho propõe uma interpretação destes tipos iconográficos à luz do pensamento católico e do contexto social de Minas Gerais. Esta região testemunhou a emergência do mais importante centro artístico da América Portuguesa no século XVIII; esculturas de Santa Anna ocupavam um lugar de destaque em paróquias e capelas mineiras. Tornaram-se imagens de culto para indivíduos e grupos diversos. O objetivo desta pesquisa é compreender o significado destas imagens que não estão enraizadas em passagem alguma das Escrituras; elas constituem, ao contrário, um retrato cultural dos papéis atribuídos à maternidade.
“Prezada Censura”: cartas ao regime militar
O artigo analisa a censura de diversões públicas durante o regime militar brasileiro através de documentos administrativos e das cartas enviadas por pessoas comuns à Divisão de Censura de Diversões Públicas.
Anistia e crise política no Brasil pós-1964
O artigo discute aspectos da anistia política promulgada em 1979 no Brasil. Considera suas conexões com a conjuntura de transição no país, mas propõe que seu significado profundo está relacionado com as tradições de conciliação e contra-revolução da história política brasileira.
História, tempo presente e história oral
Partindo da interdição da história recente e do uso de testemunhos diretos no século XIX, este artigo busca discutir a relação entre passado e presente na história e os novos caminhos para o estudo da história do século XX. Estabelecendo a diferença entre história e memória (e entre historiador e history maker), este trabalho trata dos problemas teóricos e metodológicos da história oral hoje.
Por uma história da esquerda brasileira
O artigo discute o campo teórico e historiográfico no qual se pode inserir uma história da esquerda brasileira. Este campo pode ser teoricamente formulado a partir das contribuições de algumas correntes historiográficas contemporâneas. Entre elas: a Escola Marxista Inglesa, a “história vista de baixo”, a História Oral, a história do tempo presente, e a história política renovada. No Brasil tem crescido o número de trabalhos voltados para a história da esquerda brasileira. A maior parte desta literatura enfoca a história do PCB e a luta armada. O período compreendido entre as décadas de 1970 e 80, caracterizado essencialmente pela resistência e pelo processo de redemocratização, ainda não foi suficientemente estudado.
A Frente Única Antifascista (FUA) e o antifascismo no Brasil (1933-1934)
Em 1933 e 1934 as esquerdas brasileiras criaram organizações para impedir o crescimento do fascismo no Brasil, representado pela Ação Integralista Brasileira (AIB). O Partido Comunista e a “trotskista” Liga Comunista (LC) disputaram a hegemonia neste embate político. Nos últimos meses de 1934 o antifascismo de esquerda teve dois importantes momentos que criaram as condições para sua ampliação política e geográfica: a “Batalha da Praça da Sé” e a criação da Comissão Jurídica e Popular de Inquérito (CJPI) que aglutinou os diferentes grupos políticos antifascistas e progressistas e preparou as bases da formação de um mais amplo movimento político, a Aliança Nacional Libertadora (ANL).
Entrevistas
Entrevista com Robert Darnton
Entrevista com Robert Darnton. Entrevista feita por José Murilo de Carvalho.Tradução de José Murilo de Carvalho. Robert Darnton nasceu em 1939 em Nova Yorque. Completou o doutorado em História na Universidade de Oxford em 1964. Foi repórter do The New York Times em 1964-65. Desde 1968 ensina na Universidade de Princeton, onde foi colega de Lawrence Stone e é colega de Natalie Davis. Foi fellow do Institute for Advanced Study de Princeton, onde estabeleceu relações estreitas com Clifford Geertz. José Murilo de Carvalho o conheceu nesse Instituto em 1981, quando ele trabalhava no texto sobre o grande massacre de gatos. Foi membro dos Institutos de Estudos Avançados de Stanford, Berlim e Holanda, e da École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Seu primeiro livro, sobre o mesmerismo, foi publicado em 1968. Seu prestígio acadêmico se firmou com a publicação em 1979 do The business of Enlightenment, uma história da publicação da Enciclopédia, primeiro produto da descoberta do fabuloso arquivo da Sociedade Tipográfica de Neuchâtel. A partir daí tornou-se autoridade na história do livro, da impressão e da vida literária do final do século XVIII francês, tendo sido várias vezes premiado.
