Editorial
Entre a plataformização e a autonomia: novos velhos caminhos para a publicação acadêmica
Em 2025, a Topoi. Revista de História completou 25 anos. Mais do que uma efeméride importante para o periódico e o Programa de Pós-graduação em História Social da UFRJ, que se engajou em sua criação e o mantém, tratou-se de um momento de reavaliação de práticas editoriais, de questionamento dos manuscritos que buscamos publicar e dos meios de continuar a fazê-lo, além de reflexão sobre as limitações impostas pelos nossos atuais veículos de divulgação. Chegamos, finalmente, a um impasse sobre a viabilidade de uma publicação que se encontra, hoje, entre as mais respeitadas da área e recebe um fluxo bastante positivo de submissões, além de contar com uma equipe engajada e diversa.
Ao longo de sua existência, a Topoi buscou continuamente estimular publicações relevantes para a área e a profissionalização do trâmite editorial. Nos últimos anos, foram despendidos esforços no sentido de estimular a exogenia da revista, que conta com um corpo editorial plural e internacionalizado, e de lançar chamadas públicas para dossiês. Essas mudanças foram acompanhadas pela excelência de nosso processo de edição e compromisso de levar aos leitores a melhor versão possível dos textos que nos são submetidos.
A profissionalização crescente da Topoi se deve, parcialmente, à parceria firmada com o Scielo desde 2015, quando a revista se juntou a um ainda tímido conjunto de periódicos de História na coleção. As exigências levaram a uma maior padronização da revista e compromisso com sua regularidade como parte do investimento na indexação, um processo difícil e moroso que não é minimizado uma década depois. Somos gratos por essa trajetória que favoreceu o crescimento da revista.
As exigências nos últimos anos, contudo, passaram a se chocar com o que defendemos para um periódico de História e a comprometer nossa sustentabilidade. Adaptamo-nos em alguns casos, cedemos parcialmente às exigências ou resistimos a elas, até chegar a um ponto sem retorno: nosso compromisso em oferecer uma revista de acesso livre, aberto e gratuito, para autores e leitores, é inegociável; os cuidados que depositamos em um processo de edição feito por pessoas é relevante; a autonomia de nosso corpo editorial é inerente à qualidade de nossas publicações; e, finalmente, o financiamento público, já tão escasso, deve se reportar ao melhor interesse do campo acadêmico, ou seja, a primazia da qualidade da ciência nacional.
Financiada por um programa Capes 7, a Topoi conta hoje com cerca de um terço de seu orçamento. Esse número não é negligenciável, especialmente considerando a quantidade de programas 7 no Brasil e a disparidade em relação ao financiamento dos demais programas. Mal podemos imaginar o esforço para manter revistas de alto nível, com uma preparação profissional dos manuscritos, pelos demais programas. Isso certamente se dá com a extenuação dos corpos editoriais que, sabemos, são formados por professores doutores que acumulam as tarefas de suas revistas com seus compromissos de ensino, pesquisa e extensão.
Mas essa cifra não é suficiente. Encerramos 2025 com um número de artigos publicados considerado baixo (22) e de traduções muito aquém do que é atualmente preconizado como ideal pelo Scielo. Tais exigências refletem a imposição de métricas e de políticas que, frequentemente, são emprestadas de outras áreas e perdem de vista as especificidades das publicações em Ciências Humanas. Para essas, a reflexão é um processo que toma tempo para adequar um quadro teórico-metodológico, dedicação para analisar as fontes e talento para narrar os resultados. A transparência do processo de investigação em um artigo acadêmico, com rigor nas citações e referenciação dos dados, é parte constitutiva de nosso fazer historiográfico e é reivindicada, pelo menos, desde o final do século XVII. É também um imperativo da ciência aberta. Nossas publicações, no entanto, em contraste com o que ocorre em áreas de ciências da terra, que orientam em geral os critérios métricos editoriais, não raro ganham tração anos após a publicação original, e não contam com financiamentos empresariais. A equalização da importância de uma publicação ao clique imediato ou à sua viralização, o que as novas exigências do Scielo parecem estimular, desconsidera essas características.
Os benefícios da plataformização hoje não superam, portanto, as limitações impostas que ameaçam o que a Topoi é. A imposição de uma lógica que essencialmente abole a independência do corpo editorial, reduzindo editores à busca de pareceristas para aprovar artigos já divulgados como preprints e que precisam atingir uma cota mínima, não promove a qualidade das publicações. Aumentar a exigência do número de artigos publicados tampouco contribui para a busca pela excelência dos periódicos ou reflete a realidade de seu financiamento, pelo contrário. Da mesma forma, vedar as traduções para o português de artigos fundamentais para a área e menosprezar resenhas não reconhece as dificuldades de acesso às publicações internacionais. Por fim, concordar com o Scielo como intermediário na aquisição de verbas junto à CAPES endossa seu poder decisório sobre as políticas dos periódicos, além de escancarar a distinção e o capital entre pesquisadores que publicam na base e aqueles que publicam além. É fundamental, nesse sentido, a regularização da chamada Programa Editorial pelo CNPq.
A divulgação científica no Brasil é invejada em todo o globo precisamente por seu caráter aberto e gratuito, a despeito de todos os problemas de financiamento público que enfrentamos. Adicionar uma lógica comercial e produtivista a esse cenário ou contribuir para o monopólio da divulgação científica parece um retrocesso. O escape da comercialização pode vir a ser apenas resistência a um processo inexorável. Mas defendemos que um outro caminho é possível e nele permaneceremos engajados, buscando novos indexadores e, sobretudo, mantendo a qualidade de nossas publicações e nosso compromisso com nossos autores e o público leitor. A ciência só pode ser aberta se ela não for limitada àqueles que podem pagar para divulgar seus resultados e se houver periódicos capazes de transmitir a palavra.
