Chamada de artigos

Dossiê 2026

Uma outra história da diplomacia dos mundos medieval e moderno: literatura, ideias e agentes (séculos XIV-XVII)

A Topoi – Revista de História receberá artigos originais em português, inglês ou espanhol para o dossiê Uma outra história da diplomacia dos mundos medieval e moderno: literatura, ideias e agentes (séculos XIV-XVII) que será publicado no volume de 2026. Também serão bem-vindas resenhas de obras que contemplem a temática.

Introdução:

A história diplomática experimentou um renovado impulso sobretudo a partir dos anos 2000, quando é possível identificar um salto quantitativo e qualitativo de pesquisas dedicadas a esse campo. É inegável que essa revitalização veio na esteira do amplo revisionismo da própria história política que, desde meados dos anos 80 do século XX, procurava, em última instância, desmantelar o paradigma do Estado moderno.

Ao assumir a interdisciplinaridade como um dos pilares deste processo, as fronteiras do político expandiram-se, ao passo que o olhar dos historiadores se deteve em categorias analíticas alternativas – como a cultura política – para compreender o fenômeno do poder e da autoridade instituída, assim como os seus mecanismos de reprodução, transmissão e transformação ao longo do tempo. Tal perspectiva não poderia ser mais evidente quando nos referimos à história da diplomacia, cujo método se aprimorou ao incorporar categorias como a cultura, a semiótica, a filologia e a antropologia no seu campo de reflexão. Conforme apontado por Xavier Gil Pujol, um dos traços mais distintivos desse período foi a consideração da política à luz dos seus componentes culturais (2006, p. 398), para iluminar todo um sistema de códigos derivados da cultura retórica humanista. No mesmo contexto, o salto quantitativo se deu por meio da ampliação dos espaços estudados, uma consequência natural da crítica ao eurocentrismo encampada pelas emergentes história global e história decolonial. Da mesma maneira, as pesquisas em múltiplos arquivos tornaram-se frequentes, permitindo ao pesquisador traçar e desvelar toda a amplitude, a complexidade e os impactos das redes diplomáticas na conformação do mundo moderno.

No que tange aos estudos destinados ao final da Idade Média e à Idade Moderna, esta “outra história diplomática” colocou ênfase na prática da política e na circulação dos agentes, dos textos e das ideias nas quatro partes de um mundo que multiplicava cada vez mais as suas ligações diretas. Alinhado com os fundamentos da história cultural, o foco deslocou-se para a esfera da prática diplomática e das representações, abrangendo também as estratégias de resistência a esta mesma força prescritiva-normativa. Assim, a centralidade da figura do embaixador cedeu espaço para todo um conjunto de agentes diplomáticos, desde secretários, funcionários da embaixada, mulheres, militares, comerciantes, eclesiásticos e espiões que atuavam – direta ou indiretamente – na representação e no serviço do poder soberano, seja ele o rei, imperador, o sultão ou a cidade-estado.

Por outro lado, o conceito de circulação foi ressignificado, levando em consideração o contexto linguístico específico no qual emergiu. Mais do que o deslocamento em si mesmo, a ideia de circulação passou a incluir outras subcategorias, como produção, transmissão, tradução, mediação e até mesmo tráfico. A investigação das obras teatrais, pinturas, poemas, prosas e notícias (impressas ou disseminadas oralmente nos mentideiros e cafés) produzidas com finalidades diplomáticas expandiu-se e adquiriu uma maior profundidade. A reconstituição da interação entre o serviço diplomático e a cultura retórica humanista desvelou a força performativa do discurso, seja ele oral ou escrito. Outro aspecto complementar e notável foi o chamado “giro material” introduzido pelo campo da cultura escrita. O conhecimento das instâncias de produção, de tradução e de circulação dos papéis revelou-se promissora. A técnica de análise do tipo de papel e letra, por exemplo, poderia revelar mais sobre o lugar da publicação do que o próprio nome estampado na capa.

Contudo, as investigações mais amplas revelaram que os entrelaçamentos da diplomacia com a literatura ou o teatro, por exemplo, não foram exclusivos da Itália renascentista nem da Europa, mas se encontram na (e em alguns casos se estendem à) África, América e Ásia. Concluindo, os estudos no escopo da Nova História Diplomática vão insistir na importância de se compreender a relação entre as três dimensões da diplomacia que apontamos para além da esfera política normativa (dita tradicional): textual, ideológica e performativa. Com base nessa ideia, o grupo de pesquisa Sigillum, registrado no CNPq e representado nesta ocasião por Marcella Miranda (UNED) e Adriano Comissoli (UFSM), dedicou-se à elaboração deste dossiê. O objetivo é compilar pesquisas recentes no Brasil e no exterior alinhadas com a abordagem metodológica da Nova História Diplomática e, finalmente, estabelecer um espaço para divulgação e diálogo atualizado sobre essa temática.

Informações para a Submissão:

Os artigos devem ser originais, inéditos e ter entre 40 mil e 60 mil caracteres. As resenhas devem apresentar obras publicadas nos últimos dois anos, ou quatro anos em caso de publicação estrangeira, e ter entre 10 mil e 18 mil caracteres. Os manuscritos devem seguir as diretrizes da Topoi contidas nas instruções aos autores: https://revistatopoi.org/submissao/

As submissões devem ser feitas via Open Journal Systems, marcando a opção que especifica o dossiê: https://revistas.ufrj.br/index.php/topoi/issue/current

O envio de artigos estará aberto até o dia 20 de dezembro de 2025. Os artigos serão avaliados inicialmente pelos editores do dossiê, quanto à sua pertinência ao tema e à qualidade do periódico. Caso a submissão seja aceita, os manuscritos serão avaliados por ao menos dois pareceristas externos anônimos, no sistema de revisão por pares, duplo-cego. Os autores serão informados da decisão aproximadamente três meses após a submissão do manuscrito.

Editores:

Informações adicionais pelos e-mails: mmiranda@geo.uned.es, adriano.comissoli@ufsm.br e topoi@revistatopoi.org

Marcella Miranda (UNED, Madrid) e Adriano Comissoli (UFSM), Editores Convidados

Silvia Liebel, Editora-chefe