nº 54 / V. 24
Setembro - Dezembro 2023
Dossiê: O Antropoceno na perspectiva da análise histórica
Artigos
O Antropoceno na perspectiva da análise histórica: uma introdução
Introdução ao Dossiê: O Antropoceno na perspectiva da análise histórica
Multispecies Alliances Against the Wasteocene: Counter-Narratives and Commoning Practices
In this article, we will not engage with the scientific Anthropocene, rather, we are interested in challenging what Jason Moore has called the popular Anthropocene, that is, a narrative about the present socio-ecological crisis and its causes. The Wasteocene is part of a wider critique of the Anthropocene narrative that stresses the need to look at inequalities and power relationships to understand the socioecological crisis. Those alternative concepts are competing with the Anthropocene on a narrative ground; they are part of an imaginative mobilization to challenge the mainstream production and organization of collective narratives. This article is an apology for the power of narratives. Narratives can oppress, hide, or liberate. We will focus on stories of multispecies alliances against the Wasteocene; narratives are humans’tools. Though employing - actually celebrating - such an anthropocentric tool, we will go beyond the human, exploring the narratives that convey a sense of multispecies oppression and liberation.
Antropoceno e futuros presentes: entre regime climático e regimes de historicidade potenciais
O objetivo deste artigo é realizar uma reflexão acerca da relação entre Antropoceno e regimes de historicidade potenciais que emergem no presente. Para isso, realiza-se uma discussão acerca da possível nomeação de um “regime antropocênico de historicidade”, interrogando a sua pertinência heurística, assim como suas implicações políticas. Em seguida, ainda que de forma breve e ampla, apresenta-se uma chave possível de leitura para realizar uma cartografia dos regimes de historicidade potenciais que emergem no presente, investigando de que modo eles são elaborados, como se relacionam, interagem, convivem e se combatem, no esforço de fazer valer novas formas de temporalização diante do novo regime climático.
Um fazer histórico xamânico: o potencial cosmo-histórico de reconectar territórios no Antropoceno
Para além dos aspectos climáticos e ambientais, o Antropoceno configura também uma época de esgotamento dos modelos clássicos de imaginação política do Ocidente. O objetivo do presente artigo é apresentar um panorama da produção intelectual contemporânea sobre o Antropoceno e as Ciências Humanas e, nessa perspectiva, analisar as potencialidades do regime de historicidade cosmo-histórico para a produção de uma história mais centrífuga, múltipla e atenta aos silenciamentos impostos pela modernidade ocidental. Nesse sentido, corroboramos o argumento de que a Cosmo-história é capaz não apenas de dar voz a outras subjetividades, mas de incorporar princípios epistemológicos não antropocêntricos à sua prática metodológica, configurando uma teoria simétrica da história, que reconhece uma pluralidade irredutível de experiências de historicidade enquanto parte ativa da produção do conhecimento.
O Antropoceno e suas relações com a história dos games
Este artigo tem o objetivo de apresentar um panorama sobre o desenvolvimento tecnológico no século XX, particularmente dos videogames, a obsolescência tecnológica e o lixo digital. O mapeamento desse cenário é fundamental para problematizar as aproximações entre games e o pensamento acerca do Antropoceno, o qual será feito por meio da exposição de alguns exemplos de jogos eletrônicos que incorporam narrativas ambientais em seu gameplay. Baseados nessa estrutura, desenvolvemos um estudo que demonstra como a indústria dos videogames surgiu sincronicamente ao desenvolvimento militar no século XX, tornou-se um problema ambiental ao produzir lixo digital e, nas duas últimas décadas do século XXI, incorporou as preocupações originadas da perspectiva do Antropoceno na elaboração de gameplay.
Narrativas e imaginarios geográficos en torno a represas hidroeléctricas en la Patagonia: entrelazamientos energéticos para pensar el Antropoceno en escala regional (1967-2021)
Este artículo analiza las narrativas e imaginarios geográficos del Antropoceno en torno a dos hitos hidroeléctricos en la Patagonia argentina: la construcción del complejo Chocón-Cerros Colorados (1968-1977) y las represas Cóndor Cliff-La Barrancosa (desde 2013). A partir de perspectivas de la Ecología Política y los Ecofeminismos Latinoamericanos, problematizamos los entrelazamientos energéticos entre trabajo, naturaleza y desarrollo en la Patagonia centrándonos en la hidroenergía. El análisis realizado, a partir de cortometrajes estatales, empresariales y sindicales y producciones artísticas y artivistas, permite identificar las condiciones situadas que caracterizan el Antropoceno en la Patagonia, marcado por el origen y persistencia del imaginario “Patagonia-energía” y su signo civilizatorio-desarrollista. Finalmente, ponemos de relieve un frente de resistencia en la región que se despliega desde la lucha obrera del Choconazo en 1969 a la resistencia indígena y los frentes ecofeministas actuales contra el Terricidio.
Porcos, vírus e plantas: uma história multiespécies da modernização agropecuária na Fronteira Sul do Brasil durante a Grande Aceleração
Este estudo analisa a tecnificação agropecuária na fronteira Sul do Brasil durante a Grande Aceleração, argumentando que episódios conflituosos envolvendo elementos humanos e não humanos exemplificam disputas no campo científico, tecnológico e industrial entre elementos como a dominante - porém ‘decadente’ - banha de porco versus a versatilidade do óleo vegetal proveniente da soja. Essa batalha entre óleos e gorduras, no limite, produziu também lutas sociais e novas hierarquias não apenas regionais, mas em múltiplas escalas. Metodologicamente, este estudo intercala a análise de eventos regionais com as modificações nacionais e globais, conectando-se aos debates econômicos, políticos e científicos e suas pretensões de gerenciar porcos, soja e vírus. Em termos teórico-metodológicos, a partir de uma abordagem que combina história ambiental, história das ciências e estudos ambientais, este artigo articula a relação entre humanos e não humanos na construção de processos históricos como a tecnificação da agricultura na região.
Resenhas
O desafio do Antropoceno para a cosmologia dos modernos
Resenha do livro: LATOUR, Bruno. Diante de Gaia. Oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. Meyer, Maryalua. São Paulo: Ubu, Ateliê de Humanidades. 2020.
Representar o Antropoceno
Resenha do livro: JAMES, Erin. Narrative in the Anthropocene. Columbus: The Ohio State University Press, 2022. 234
Entrevistas
History in a Planetary Age: An Interview with Dipesh Chakrabarty
The climate of history - and, we may argue, of the social sciences and the humanities more broadly - has been changing in significant ways since the publication of Dipesh Chakrabarty’s groundbreaking article “The Climate of History: Four Theses” in 2009. With this exploration of how “anthropogenic explanations of climate change spell the collapse of the age-old humanist distinction between natural history and human history” (2009, p. 201), Chakrabarty, the Lawrence A. Kimpton Distinguished Service Professor of History and South Asian Languages and Civilizations at the University of Chicago, played a decisive role in making the Anthropocene a crucial category for scholars concerned about the human impact on the planet. While this piece sparked a range of debates and questions, such as the suitability of the term “species” in face of the deep social, economic, and political disparities at the heart of humans’ impact on the Earth, depictions of the ecological crisis in popular culture and media increasingly suggest humans are a geological force pushing the environment to the brink of collapse. In one way or another, they converge on what Chakrabarty has identified as the limitations of the critique of globalization, which does not address the planetary as an unescapable dimension of human affairs. On a more fundamental level, and already in conversation with the author’s more recent scholarship on the topic, our predicament is how to live in “an order that presently seems unimaginable: an order that is not necessarily human dominant” (2021, p. 195). This is one of the questions animating the chapters of the 2021 book The Climate of History in a Planetary Age, in which Chakrabarty does not abandon the concept of Anthropocene, but makes the case for the planet as a more capacious category with which to address the type of questions asked and the methodologies developed by the humanities and social sciences. This can be seen as a new twist in Chakrabarty’s wide-ranging scholarship, including his renowned previous work on postcolonial studies epitomized in the book Provincializing Europe: Postcolonial Thought and Historical Difference (2000). The Climate of History once again raises the stakes of related debates by establishing the planet as a heuristic category where the personal, the biological, the political, and the geological intersect. What does it mean, for example, to reconsider the crossroads presented by the many modernizing waves that spread through the Global South in the twentieth century from the viewpoint of today’s planetary demands? How can we think from humanistic perspective about a planet that, contrary to the global, cannot be placed “in a communicative relationship with humans?” (2021, p. 70). What can the critical gesture of centering the planetary contribute to some of the most urgent questions, ideas, and anxieties stemming from the ecological crisis across a wide range of disciplines? In this interview, conducted on a cold day in the January of 2023 in Chicago, Chakrabarty offers us new insights onto this rich plethora of questions.
