Artigos
Sobre as Crônicas de São Denis e o Liber florum, de João de Morigny: algumas possibilidades
Este artigo tem por objetivo analisar dois relatos, extraídos das Crônicas de São Denis, sobre um monge anônimo de Morigny que, na primeira metade do século XIV, supostamente praticava magia e cultuava demônios. Serão considerados os relatos das continuações da Cronica latina de Guilherme de Nangis e das Grandes Chroniques de France sobre esse tema. Essas referências são analisadas de forma comparativa em relação a outro texto, da mesma época, escrito em primeira pessoa por João de Morigny e intitulado Liber florum celestis doctrine. Essa pesquisa defende a hipótese de que o anônimo das Crônicas de São Denis é João de Morigny. O estudo comparado aqui apresentado torna possível verificar, ainda, que o que era descrito como demoníaco pelos cronistas de São Denis, segundo João, é exemplo de devoção e ortodoxia, o que remete a um espaço de contradição e disputa a respeito do que era entendido como “magia” no Medievo.
Los philosophes, los antiphilosophes y la opinión pública en Francia hacia 1760
En 1760 Palissot estrena Les philosophes, una comedia que expone dos problemas que preocupan a los antiphilosophes y a los enciclopedistas: está muy de moda hacerse llamar philosophe, aunque no se merezca tal denominación; quienes se jactan de entregarse de manera altruista a la batalla contra los prejuicios de la época emplean las artimañas más viles contra sus semejantes para lograr la codiciada plaza o el aplauso del público al que creen poder manipular a su antojo. Mediante el análisis de los textos en torno a la figura del philosophe en la Francia del siglo XVIII, y en particular los que alertan contra el deterioro de su imagen pública motivado por las querellas literarias, el artículo rescata fuentes que apenas han sido estudiadas, que resultan decisivas para comprender cómo los hombres de letras se perciben a sí mismos y valoran su ascendencia social sobre la multitud iletrada, despreciada tan a menudo. Desde esta perspectiva, el philosophe aparece como una figura polémica que se postula como el director de la opinión pública.
Antônio Pardo e a hierarquia social no mundo rural brasileiro do século XIX
O artigo analisa a trajetória de vida de Antônio Varela, homem pardo, filho de uma mulher alforriada, nascido no ano de 1805, capitão da Guarda Nacional, senhor de escravos e reconhecido proprietário de terras na vila da Piranga, antigo distrito do município de Mariana, em Minas Gerais. A partir de suas relações familiares, de compadrio e de vizinhança em torno da posse da terra, este artigo demonstra os caminhos da mobilidade social e as estratégias da ascensão econômica, explorando uma trajetória que esteve circunscrita a uma sociabilidade cotidiana geograficamente erigida. Assim, este artigo evidencia uma cartografia da liberdade e da ascensão econômica e social, dando destaque aos novos espaços de sociabili- dade que permitiram um novo lugar social para Varela na hierarquia local.
“Por terra ou por água”: os rios Tapajós e Xingu entre os planos de transporte na Amazônia do século XIX
Este texto propõe recuperar os principais debates que envolveram a implantação de vias de navegação no Pará da segunda metade do século XIX, reservando um aparte para as experiências vivenciadas nos rios Tapajós e Xingu. Para isso, utilizamos um conjunto de docu- mentação produzida pela administração provincial e do Império, assim como os anais do parlamento brasileiro. A perspectiva é compreender as ações do governo imperial como política de incentivo à migração de populações para áreas beneficiadas com essas construções, de forma a perceber os impactos sobre a ocupação e o consequente aumento produtivo, na medida em que novas áreas de cultivo e extração fossem exploradas e novas técnicas fossem conduzidas para essas regiões com o processo migratório.
Ernesto Benedicto Ottoni e a construção da carreira médica: entre leituras, práticas e produção do conhecimento (1841-1881)
O artigo busca reconstituir a trajetória do médico Ernesto Benedicto Ottoni, entre 1841 e 1881. Personagem pouco reconhecido pela historiografia, sua biografia, contudo, traz elementos relevantes para uma reflexão sobre a carreira médica no século XIX. A proposta se insere na perspetiva de outros estudos que, a partir de casos particulares, contemplam as diversas formas de inserção dos médicos na sociedade imperial. Pretende-se mostrar os recursos que esse médico mobilizou para construir seus espaços de atuação, os quais envolviam tanto o reconhecimento acadêmico, como o exercício de funções junto ao Estado e relações familiares e sociais, aspectos inerentes ao exercício da profissão médica do período.
Erich Auerbach e a apologia das ações modestas
Este artigo analisa os primeiros estudos de Erich Auerbach sobre Dante Alighieri, produzidos na década de 1920, de modo a salientar as rivalidades teóricas e políticas que atravessavam o ambiente acadêmico em que ele estava inserido. Dentre as tendências interpretativas que se estabeleceram após a Primeira Guerra Mundial sublinha-se a busca pela relevância atual da Divina comédia para a sociedade alemã. Por um lado, essa inclinação fundamentou leituras ufanistas e racialistas de Dante, e por outro, embasou a defesa da unidade da cultura europeia que, em alguma medida, seu poema permitiria vislumbrar. Os textos de Auerbach situam-se no segundo grupo, posto que, nos versos dantescos, para além da orientação teórica de sua reflexão sobre a literatura, ele teria encontrado o sentido do seu envolvimento no mundo enquanto filólogo europeu.
A Física nuclear em comparação: César Lattes e físicos do Hemisfério Norte nos anos 1930 e 1940
Entre 1946 e 1948, o físico brasileiro César Lattes teve participação central na observação experimental dos mésons. Manuseando instrumentos disponíveis nos laboratórios das Universidades de Bristol e de Berkeley, após se formar na Universidade de São Paulo, Lattes teve contato com estilos de pensamento distintos, dos quais apropriou habilidades específicas na Física nuclear. Analisarei inscrições produzidas por cientistas desses laboratórios em seus estudos sobre o núcleo, comparando suas práticas e valores. Dedicarei atenção ao saber não verbal que Lattes desenvolveu e foi portador, essencial para pensar arranjos instrumentais e identificar evidências visuais da existência dos mésons. Evidencia-se, ao longo do trabalho, sua fácil adaptação a laboratórios e sua sensibilidade para extrair dos instrumentos e teorias disponíveis o melhor que podiam dar.
A revista S. Paulo (1936): fotomontagem e propaganda política na década de 1930
Este artigo apresentará o ideário do Movimento Bandeira e a composição imagética da revista S. Paulo (1936). Nosso objetivo será discutir como o ideário desse movimento político-cultural foi utilizado como estratégia discursiva para compor a visualidade do referido órgão publicitário. Para apresentarmos essa apropriação, faremos a exposição das formas como a produção cafeeira, a cidade de São Paulo e o “mito bandeirante” foram trabalhados visualmente nesse periódico. Consideramos que a leitura da revista S.Paulo será de extrema relevância, uma vez que apresentaremos a interação entre o ideário do Movimento Bandeira e os usos políticos das fotomontagens. Com a análise, esclareceremos os meios pelos quais o corpo editorial da revista lançou mão da fotografia e da fotomontagem para transmitir uma mensagem política.
Más allá del “silencio” y del “mito del silencio”: Hannah Arendt, lo dicho y lo decible sobre el Holocausto en la posguerra (1945-1963)
En este trabajo abordaremos la cuestión de lo dicho y lo decible sobre el Holocausto en el marco del “discurso social” hegemónico de posguerra, analizando, primero, dos posturas contrapuestas: la del “silencio” y la del “mito del silencio”. Luego, presentaremos la categoría “alertadores de incendio” de Enzo Traverso, para matizarlas y destacar cómo el campo de lo decible estaba condicionado tanto por la coyuntura socio-política como por las formas discursivas dominantes; y, finalmente, desarrollaremos el caso de Hannah Arendt, inscripto en dicha categoría, atendiendo los cambios en su producción sobre los crímenes nazis (1945-1963), en el contexto de su marco investigativo en Estados Unidos, para mostrar cómo lo decible se cristaliza, hasta que irrumpen nuevos discursos, nuevas disputas.
Ninguém faz a guerra sozinho. O trabalho da memória nos encontros de ex-combatentes portugueses da guerra colonial/de libertação em Angola
Este artigo examina o trabalho coletivo de construção de memória nos encontros de veteranos da guerra colonial/de libertação de Angola. Partindo de observação etnográfica de reuniões anuais de uma companhia portuguesa de artilharia que combateu no país entre 1971 e 1973 e de entrevistas em profundidade com ex-combatentes, o artigo propõe um olhar etnográfico sobre a revisitação contemporânea de um passado ainda sob escrutínio. Analisam-se os encontros anuais de veteranos enquanto espaços de negociação e produção do passado, incluindo a construção de intermediação com a obra literária de António Lobo Antunes, um dos conscritos dessa unidade. Argumenta-se que essas reuniões anuais de veteranos são atos íntimos de comemoração que, baseando-se no imaginário e nas dinâmicas de proximidade familiar, na despolitização do conflito enquanto acontecimento histórico, na partilha dos aspetos solares e de narrativas experienciais, constroem uma linha invisível entre o passado e o presente.
O romance Quarup, de Antônio Callado: entre a literatura e a crise brasileira
O artigo pretende examinar a repercussão, nas páginas do Jornal do Brasil e do Correio da Manhã, do romance Quarup, publicado por Antônio Callado em 1967. A análise quer mostrar o modo pelo qual o livro foi lido como um romance que expressava a complexidade das diferentes saídas políticas em jogo durante aquele momento de crise. Nesse sentido, Quarup era lido como um romance da “crise brasileira”. Mais que isso, já naqueles anos, Quarup era percebido como um momento de inflexão e transformação das formas literárias no Brasil. Por último, pretende-se ratificar, a partir das consequências do AI-5 e da censura para as atividades do próprio Antônio Callado, como a ação da ditadura militar restringiu o debate cultural e artístico, contribuindo para limitar os horizontes da imaginação política do período.
Para a celebração de Dante, Erich Auerbach, 1921
Tradução de Patrícia da Silva Reis Marques. Revisão da tradução: Leopoldo Waizbort (Universidade de São Paulo / Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia, São Paulo, SP). AUERBACH, Erich. Zur Dante-Feier. Die neue Rundschau 32.2, p. 1.005-1.006, 1921.
Resenhas
A heterogeneidade das viagens ao Novo Mundo
Resenha do livro: Hue, Sheila; LESSA DE SÁ, Vivien Kogut. Ingleses no Brasil: relatos de viagem de 1526 1608. São Paulo: Chão, 2020. 303p.
A vigilância da Inquisição sobre a comunidade atlântica: a trajetória de Páscoa Vieira
Resenha do livro: Castelnau-l’estoile, Charlotte. Páscoa Vieira diante da Inquisição: uma escrava entre Angola, Brasil e Portugal no século XVII. Trad. Ligia Fonseca Ferreira e Regina Salgado Campos. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020. 280 p.
Produção, circulação e consumo de conhecimento histórico nas mídias digitais: uma conversa com Mateus Pereira
Resenha do livro: Pereira, Mateus Henrique de Faria. Lembrança do presente. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. 144 p.
