nº 50 / V. 23

Maio - Agosto 2022

Artigos

Transcrição crítica e apresentação do Regimento ao general da Armada

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Por: Hugo André Flores Fernandes Araújo - Universidade Federal de Juiz de Fora

O Regimento ao general da Armada é uma cópia manuscrita que integra o acervo da Biblioteca Nacional. O principal tópico abordado no documento era a garantia da defesa da Bahia diante das ofensivas holandesas. Este regimento contém as instruções passadas ao general da Armada de mar oceano, Antonio Teles de Menezes, enviado ao Estado do Brasil em 1647 a fim de desfazer o bloqueio marítimo à cidade de Salvador. Além das instruções relativas aos procedimentos de comando da Armada, o regimento apresenta diversas instruções que nos permitem compreender as estratégias e intenções da coroa portuguesa naquele contexto. Entre elas, uma que merece destaque é o apoio à Armada que partiria do Rio de Janeiro para a reconquista de Angola em 1648.

Primo Levi e os limites da representação

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Por: Cleber Vinicius do Amaral Felipe - Universidade Federal de Uberlândia

Este artigo discute o topos do limite da representação, que não surgiu no século XX, mas foi utilizado por muitos sobreviventes da Shoah para sugerir que os eventos ocorridos nos campos de concentração não poderiam ser convertidos em narrativa verossímil. Embora Primo Levi tenha recorrido a esse lugar-comum, nem por isso furtou-se de refletir sobre os horizontes e possibilidades da representação. Pretende-se analisar de que maneira o autor mobilizou diferentes expedientes para figurar o inaudito da experiência no Lager.

Religião e império na vida de um peregrino do século XVI

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Por: João Augusto Guerra da Rocha Nunes

Com este estudo pretende-se observar a existência e a mundividência de Francisco Barbosa, que nasceu em meados do século XVI no seio de uma família do campesinato. Oriundo do meio rural, de famílias do 3º Estado do norte de Portugal, conheceu vários continentes (de Portugal ao Brasil, passando por África e Flandres). Acabou por se dedicar, em determinada fase da vida, à peregrinação jacobeia. O seu percurso foi marcado por dois vetores fundamentais: religião e império. A pretexto de se estudar a vivência e pensamento de Barbosa, pretende-se conhecer aspectos ligados à mundividência dos estratos populares, de famílias camponesas, que por norma são secundarizados pela historiografia em detrimento das elites ou instituições.

Huguenotes, ingleses, abacaxis: associativismo abolicionista e escravizados nas rotas de fuga entre Pernambuco e Ceará na década de 1880

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Por: Felipe Azevedo e Souza - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Huguenotes, ingleses e abacaxis são termos que foram empregados por abolicionistas para ocultar a identidade de pessoas escravizadas que escaparam do cativeiro por rotas de fuga entre a Zona da Mata pernambucana, o Recife e os quilombos abolicionistas no Ceará. O artigo aborda a montagem de uma rede abolicionista interprovincial no início da década de 1880 e a intensificação das fugas de escravizados entre 1884 e 1888, observando em particular a atuação clandestina e radical do Clube do Cupim, bem como alguns aspectos relacionados à construção de sua memória no pós-abolição. O Clube se destacou em relação às associações abolicionistas do período pela diversidade social de seus membros e pela capacidade de promover a articulação de trabalhadores livres pobres, libertos e escravizados em operações que desarticularam o escravismo na região.

A inserção do cristianismo batista em Moçambique: razões que levaram os missionários a escolherem apenas os colonos portugueses como objeto de evangelização (1950-1971)

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Por: Paulo Julião da Silva; e Harley Abrantes Moreira

Este artigo analisa a inserção do cristianismo batista em Moçambique, ex-colônia africana de Portugal, entre os anos de 1950 e 1971. Naquele contexto, os missionários se envolveram apenas com os colonos que ali viviam. A pergunta que tentaremos responder é: por que tais evangélicos não incluíram os(as) moçambicanos(as) autóctones em seus projetos? Consideraremos as razões históricas que explicam a primazia sociorracial assinalada, questionando alguns conceitos utilizados em estudos sobre história do protestantismo, especialmente os de protestantismos de “missão” e de “migração”, aqui interpelados a partir de apontamentos da Escola Italiana de História das Religiões, que oferece suporte para a principal conclusão do texto, a saber: em lugar de uma suposta natureza não missionária, o projeto era, sim, proselitista. A mídia impressa confessional do grupo será nossa principal fonte documental. Esperamos contribuir com os debates sobre as missões cristãs em África no século XX, sobretudo no âmbito da História Cultural das Religiões.

Conflito mágico-religioso no universo ficcional de um intelectual umbandista da primeira metade do século XX

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Por: Artur Cesar Isaia

Este texto tem como objeto de pesquisa uma obra de um intelectual da Umbanda, bastante citado no meio literário umbandista, chamado Lourenço Braga. Este autor deixou livros de cunho doutrinário, preponderantemente. Contudo, aventurou-se pela ficção, escrevendo um romance bastante interessante para o estudo da construção identitária da Umbanda na primeira metade do século XX. Enfoca-se, sobretudo, o esforço do autor em deixar uma narrativa da Umbanda que acenasse aos valores norteadores do agir coletivo, vigentes em meados do século XX. O conflito mágico-religioso ocupa um lugar preponderante tanto nas obras doutrinárias, quanto no romance deixado pelo autor. O romance é trabalhado como documento para a compreensão do projeto identitário da Umbanda.

Distribuição da população escravizada pelas unidades domiciliares de Guarapiranga, Mariana, Minas Gerais (1766-1810)

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Por: Álvaro de Araujo Antunes; e Marco Antônio Silveira

O objetivo deste artigo consiste em analisar a distribuição e composição da população escravizada numa das freguesias mais prósperas do termo de Mariana no decorrer do século XVIII: a de Guarapiranga. Para tanto, é adotado como fonte o inédito “Rol dos que confessaram e comungaram no ano de 1766”, cujos números são comparados com os do pouco conhecido Mapa da população da Leal Cidade de Mariana no ano de 1810. Objetiva-se dessa maneira compreender a distribuição da população escravizada pelas unidades domiciliares da freguesia no decorrer das décadas.

Trabalho e trabalhadores livres: os índios no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, século XIX

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Por: Patricia Alves-Melo

Este texto se propõe a recuperar o processo de incorporação dos índios ao universo de trabalhadores urbanos no Rio de Janeiro no primeiro quartel do século XIX, analisando, de modo particular, sua presença no Arsenal da Marinha. A proposta é recolocar os índios na cena do mundo do trabalho buscando abrir novos campos de debate com uma historiografia ancorada na experiência da escravidão africana. Ao iluminar a presença das populações nativas no mundo do trabalho carioca, espera-se contribuir para uma ampliação da complexidade do conceito de “trabalhadores livres” no século XIX.

Engenheiros do Grande Mar Redondo: engenharia e natureza nas baías de Paranaguá e Antonina (1871-1879)

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Por: Evandro Cardoso do Nascimento; Cristina Frutuoso Teixeira; Carina Catiana Foppa; e Natália Tavares de Azevedo

A construção de uma ferrovia entre o litoral e a capital paranaense gerou conflitos entre os engenheiros brasileiros, pois as elites políticas locais reivindicavam a estação portuária e o traçado da ferrovia. Considera-se que os engenheiros eram experts que, segundo Bruno Latour (2004), manejavam os processos técnicos transitando entre a ciência e a política. O artigo analisa a atuação destes engenheiros na configuração espacial do litoral do Paraná, buscando compreender os projetos de engenharia no conjunto das relações entre a sociedade e a natureza. A pesquisa foi desenvolvida a partir da análise dos relatórios técnicos dos engenheiros e conclui-se que, a partir de uma ciência positivista, os engenheiros legitimaram os anseios dos grupos políticos que idealizavam a modernização e o progresso da província.

A imaginação da informalidade urbana e dos trabalhadores no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte: uma análise dos censos de favelas (1948-1965)

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Por: Samuel Silva Rodrigues de Oliveira

O artigo analisa os censos de favelas do Rio de Janeiro e Belo Horizonte, observando a circulação de categorias sociais e técnicas de governo na compreensão da informalidade urbana na industrialização brasileira. Prioriza a compreensão das estatísticas formadas no sistema censitário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre 1948 e 1965. As categorias estatísticas para representar as favelas em números estavam inscritas em relações de poder, e através dos censos ocorriam debates sobre as políticas de “desfavelamento” das cidades e a imagem do “trabalhador favelado”. Por meio das estatísticas, a imaginação da favela carioca foi nacionalizada como “problema urbano” e “habitacional” do desenvolvimento urbano-industrial brasileiro.

A guerra fez-se de escritos assustadores: os folhetos na independência do Brasil (província Cisplatina, 1821-1824)

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Por: Murillo Dias Winter - Universidade Federal da Fronteira Sul

Neste trabalho analiso a maneira com que os panfletos foram utilizados como ferramenta política na província Cisplatina durante o processo de independência do Brasil. Os estudos sobre a imprensa durante a emancipação brasileira têm espaço destacado e recebem cada vez mais contribuições, sejam em estudos regionais, sejam em discussões conceituais, em modelos ou formas de política e cidadania. Os panfletos, nesse sentido, recebem cada vez maior destaque, oferecendo acesso a um importante meio de mobilização e disputa política, com fontes que apontam para o caráter mais dinâmico e popular do desenvolvimento da esfera pública e do processo de politização da sociedade. A partir dessa perspectiva, este trabalho foi organizado em três partes. Na primeira, discuto as definições do que se trata um panfleto e as suas características básicas de forma e conteúdo. Já na segunda, os espaços públicos de Montevidéu são contemplados para demonstrar a importância de compreender onde essas folhas soltas eram impressas e discutidas, seu contexto linguístico. E, por último, analiso os debates sobre o futuro da província através desses impressos.

Entre subalternas e anfitriãs: a complexa relação entre as mulheres e a História

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Por: Ana Luiza Mendes - Universidade Federal do Paraná

O presente artigo tem como objetivo analisar a obra de arte de Judy Chicago, The Dinner Party, à luz dos conceitos desenvolvidos pela História das Mulheres. Tal relação se dá por meio da interpretação da obra a partir do contexto no qual ela foi concebida, a da segunda onda do movimento feminista, que contribuiu para o desenvolvido da História das Mulheres como um campo teórico. Os estudos inseridos na História das Mulheres, todavia, não se limitam a apenas apontar para a existência das mulheres ao longo da história, mas também suscita o questionamento sobre o motivo e como se dá o seu apagamento. A obra de Chicago, rica em simbolismos, foi escolhida por encerrar esses vieses presentes nesses pressupostos epistemológicos conectando a afirmação de identidades, a recuperação de memórias e a releitura de uma história definida pelo gênero.

A emergência histórica do lazer revisitada

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Por: Cleber Dias - UFMG - The Federal University of Minas Gerais

O artigo analisa criticamente as conclusões mais recorrentes acerca da história do lazer, assunto que se articula, de maneira mais geral, com a economia política e com a formação do capitalismo contemporâneo. Por meio de uma ampla revisão, o artigo questiona ideias muito difundidas de que a Inglaterra do século 19 teria sido a época e o lugar para uma aguda e inédita transformação nas formas de organizar os tempos e as recreações. Não obstante as mudanças que de fato estavam ocorrendo nessas instâncias naquele contexto, o artigo argumenta que antigos hábitos persistiram e que as transformações nessa esfera foram lentas e graduais, além de estarem social e regionalmente concentradas. Além disso, transformações análogas também eram registradas, na mesma época, fora da Inglaterra. A ênfase na singularidade das transformações na Inglaterra, portanto, além de controversa, dado que dependiam de acontecimentos desenrolados em outros lugares, é produto de um viés nacionalista e etnocêntrico.

Ambiente de quem? Fim da Natureza, mudança climática e pós-política

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Por: Ana Cristina Augusto de Sousa - ENSP

Tradução de Ana Cristina Augusto de Sousa (Fundação Oswaldo Cruz / Escola Nacional de Saúde Pública, Rio de Janeiro, RJ). SWYNGEDOUW, Erik. Whose environment? The end of nature, climate change and the process of post-politicization. Ambiente & Sociedade, Campinas, v. XIV, n. 2, p. 69-87, jul.- dez. 2011.

Resenhas

Segregação racial e espaço urbano: a construção dos guetos afro-americanos

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Por: Renata Geraissati Castro de Almeida

Resenha do livro: DUNEIER, Mitchell. Ghetto: the invention of a place, the History of an idea. Nova Iorque: Farrar, Straus and Giroux, 2016.

História indisciplinada, história selvagem

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Por: Dirceu Franco Ferreira - Universidade de São Paulo

Resenha do livro: ARTIÈRES, Philippe. Le dossier sauvage. Paris: Galimard/Verticales, 2019.

Religião, política e a história dos nossos dias

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Por: Rodrigo de Sá Netto

Resenha do livro: PY, Fábio. Pandemia cristofascista. São Paulo: Recriar, 2020.

O integralismo entre o passado e o presente

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Por: Rafael Athaides - UFMS - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Resenha do livro: GONÇALVES, Leandro Pereira; CALDEIRA NETO, Odilon. O fascismo em camisas verdes: do integralismo ao neointegralismo. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2020.