Artigos
Manolo Garcia Florentino: as histórias do tráfico atlântico de cativos e da escravidão como nexos inevitáveis para compreender o Brasil e a África
Em homenagem a Manolo Garcia Florentino, o artigo analisa sucintamente sua obra historiográfica com foco nos temas do tráfico atlântico de cativos e da escravidão no Brasil e na África. Salienta-se que suas abordagens sobre estes assuntos comportam valores heurísticos em si mesmos ao mesmo tempo em que lhe deram base para interpretar o Brasil de ontem e de hoje. O homenageado integra uma geração que assistiu ao ensaísmo dar a vez à consolidação do profissionalismo historiográfico, o que foi decisivo para as inovações e impactos de sua obra. Os ineditismos e os legados intelectuais de Manolo Florentino transformaram "Em costas negras" em um clássico da historiografia brasileira e internacional. Sobre esta obra e sobre "A paz das senzalas" discorre-se aqui com mais vagar.
“Ibsen e o friso da vida!”, O friso da vida e A gênese do friso da vida, de Edvard Munch
Para a história da arte, os escritos de artistas são referências documentais importantes. Em razão disso, apresenta-se uma tradução anotada de três textos de Edvard Munch (1863-1944) relativos à história da elaboração de suas obras mais conhecidas, bem como de suas respectivas exposições: o manuscrito “Ibsen e o friso da vida!” (não datado) e os textos posteriores, nele baseados, "O friso da vida" (1918) e "A gênese do friso da vida" (1928), que serviram de apresentação à exposição O friso da vida. Esta reuniu grande parte das obras de Munch e foi o projeto artístico de sua vida; assim, tais textos dão voz ao artista e possibilitam interpretar e compreender melhor a obra desse expoente da arte. Esses textos também apontam para a possibilidade de que o próprio artista possa servir de referencial teórico ao estudo de suas obras.
“Por onde deve começar-se a história do Brasil?”: eurocentrismo, historiografia e o Antropoceno
O presente artigo parte de debate ocorrido na segunda metade do século XIX na historiografia brasileira a respeito de qual deveria ser o ponto de partida de uma narrativa da história do Brasil: a Europa (por meio do contexto da expansão europeia e das Grandes Navegações) ou a América (descrevendo-se, primeiramente, o território e as populações indígenas). Este debate envolvia a questão de definir os “antecedentes” da história do Brasil, assumindo para a história uma lógica narrativa dotada de implicações. O processo histórico assim escolhido definia um “centro” para a história do Brasil, que poderia ser “interno” (território e populações indígenas) ou “externo” (Europa, ou processo de expansão do capitalismo comercial). Aqui, buscamos analisar as implicações dessa tríade teórica antecedentes-processo-centro na historiografia de formação brasileira à luz, por fim, de reavaliações possíveis do lugar e papel das populações indígenas e da natureza na história.
Entre ruas e casas: mulheres, racialização e redes de vizinhança na cidade de São Paulo, 1776
O presente artigo desenvolveu uma articulação entre a análise das informações extraídas da Lista Geral de População de 1776 e sua territorialização, baseada no desenho da Planta da Cidade de São Paulo , de 1810. As fontes censitárias permitem trazer à luz a população frequentemente obliteradas pelas documentações oficiais , tais como livres pobres, escravizados e mulheres. Além da visada geral sobre os habitantes da cidade no período, a espacialização dos dados do arrolamento em questão permite examinar a conformação de grupos sociais e a criação de redes de vizinhança, elucidando assim estratégias sociais e modos de vida dos contingentes subalternizados. O estudo ora apresentado indica como a proximidade de moradia e concentração territorial era central para a sobrevivência de mulheres chefes de domicílio e população negra e “parda” na São Paulo setecentista.
A quem se deve a abolição: negros e as manifestações de 13 de maio em Campinas e Piracicaba (1888-1889)
Este artigo pretende analisar as posições políticas das populações negras nas disputas entre republicanos e monarquistas ao longo das comemorações pelo fim do escravismo em 1888 e 1889, nas cidades de Campinas e Piracicaba. A partir de fontes jornalísticas, pôde-se notar ao menos dois posicionamentos: um que dava todo o crédito às campanhas e aos abolicionistas populares, outro, de simpatizantes do Império, que valorizava as atuações do parlamento, da família imperial e do Partido Conservador. No pano de fundo desse debate estava a manutenção do sistema de governo. As populações negras participaram desse momento. Houve apoio aos dois lados, dependendo da afiliação do grupo, mas, de maneira geral, tentaram evidenciar sua condição de pessoas livres.
Religião, compadrio e hierarquia social: faces da monarquia portuguesa de Antigo Regime em Goiás (séculos XVIII-XIX)
Referente à Vila Boa de Goiás de meados do século XVIII até a terceira década do século XIX, o artigo se baseia na hipótese de que os ataques de índios hostis interferiram decisivamente nas relações e redes de compadrio entre senhores e seus escravos de origem africana. Pautada na ideia de que hierarquia, autogoverno, escravidão e disciplina católica compunham os pilares da monarquia pluricontinental portuguesa na América, cujos ecos ressoaram no início do império do Brasil, conjunturas de instabilidade política e de conflitos geraram uma configuração própria à escravidão em Vila Boa de Goiás. Para realizar o estudo, cruzam-se registros de batismo com documentos político-administrativos.
Folias e Congadas: memória e resistência nas narrativas quilombolas
Este artigo analisa as possibilidades de resistência que povoam o imaginário das comunidades quilombolas e são transmitidas através da oralidade, a partir da perpetuação de memórias que contam outras versões sobre o passado. Considerando-se que as relações entre a lembrança e o esquecimento são fontes privilegiadas para a problematização histórica, as narrativas aqui apresentadas trazem à tona uma perspectiva diferente daquela que é mantida pelos discursos hegemônicos. A presente abordagem explora o conteúdo da Folia de Reis e da Congada de Colônia do Paiol, uma comunidade negra situada na região da Zona da Mata de Minas Gerais, apontando para caminhos de insubmissão que podem ser enquadrados conceitualmente como epistemologias do Sul - entendendo-se o “Sul” como um campo de desafios epistêmicos atentos aos impactos historicamente gerados e perpetuados pela expansão colonial.
Os bumbás da Amazônia: literatura, etnografia e folclorização dos cordões de boi nas versões de intelectuais modernistas (1927-1943)
O artigo aborda intercâmbios entre intelectuais do Norte e do Nordeste do Brasil, direta ou indiretamente ligados ao estudo do boi bumbá, como pauta da pesquisa folclórica promovida por Mário de Andrade. São analisadas obras de escritores baseados no Pará nos anos de 1920 e 1930 dedicadas ao que concebiam como folclore amazônico, bem como cartas enviadas por literatos e músicos situados na Amazônia para Mário de Andrade, a partir de sua viagem ao Norte do país em 1927 até o ano de 1943. O estudo propõe-se a entender a oscilação entre dois modos de tratamento do tema do boi bumbá amazônico como folclore: o uso de registros das canções de cordões de bois para o desenvolvimento da arte erudita nacional e as apresentações de bumbás como objeto de estudo da pesquisa etnográfica.
Leolinda Daltro: sua dupla viagem ao encontro dos povos indígenas no Brasil central (1896-1900)
Foi uma oportunidade inusitada que proporcionou à educadora baiana Leolinda Daltro o contato com um grupo indígena Xerente, em visita ao Rio de Janeiro. Identificada com a missão de educá-los, decidiu acompanhá-los no retorno - realizando dupla viagem - à região do Brasil central. Em sua obra "Da catechese dos indios no Brasil" (1920) se pode constatar que a massa documental é indissociável da sociedade que a produziu. Nossa intenção foi a de compreender a pluralidade desta atuação e sua articulação com uma extensa rede que ela construiu e que também a constituiu e envolveu.
Folclorismo, literatura popular e invenção de tradições gaúchas na Primeira República: o Cancioneiro Guasca (1910-1917), de Simões Lopes Neto
O objetivo deste artigo é analisar o projeto folclorista de João Simões Lopes Neto (1865-1916), redesenhando suas conexões com movimentos contemporâneos de definição da cultura popular, além de seus contatos com práticas de representação letrada baseadas na cultura campesina dos países vizinhos, Argentina e Uruguai. Metodologicamente, explorarei a materialidade/edição e a economia textual de seu livro Cancioneiro Guasca (1910-1917). É possível concluir que existiu um projeto coletivo de invenção de tradições gaúchas no Rio Grande do Sul da Primeira República, suportado pelas práticas do folclorismo mais amplo, do qual participou o esforço simoniano. Essa variação de identidade gaúcha também observava o projeto castilhista-positivista de modernização conservadora, além de integrar a patrulha nacionalista de suas fronteiras simbólicas.
Os tempos do luto em impressos brasileiros na segunda metade do século XIX
As regras do vestuário de luto na segunda metade do século XIX eram bastante complexas e estipulavam quais materiais e cores deveriam ser usados, em que tipo de peças e por quanto tempo. Dominar esses pormenores era tarefa complicada, dificultada pelas fontes dessas informações que nem sempre concordavam entre si. Neste artigo, que é parte de uma pesquisa mais abrangente sobre as práticas vestimentares do luto oitocentista, buscamos esclarecer um dos seus aspectos mais problemáticos: sua duração. Nos basearemos em impressos femininos e de variedades que circulavam no Rio de Janeiro à época e que periodicamente traziam as regras do luto, discutiremos suas divergências e, por fim, analisaremos uma das consequências dos extensos tempos do luto: o desejo de diminuí-los, a despeito de seus significados.
Por novos horizontes, por um novo Portugal: Eça de Queiroz e a “geração de 1870” nas Conferências do Casino
Este artigo trata do processo de sensibilização política e intelectual que deu origem à “geração de 1870”. Por meio da análise das Conferências democráticas do Casino de Lisboa, objetiva-se discutir a relação entre a constituição desse importante grupo de intelectuais e uma das primeiras grandes críticas públicas direcionadas à monarquia constitucional portuguesa. Com efeito, pretende-se demonstrar que sujeitos com percepções e projetos bem diferentes entre si partilhavam um “horizonte de inquietação”. Para realizar tal intento, será feita a caracterização do evento em questão, tratando de suas principais ideias, componentes e repercussões. Em seguida, serão comparados os posicionamentos dos protagonistas das conferências, tomando como referência, Eça de Queiroz. A escolha deste autor como centro para a comparação deve-se não só à sua notoriedade, mas ao seu posicionamento singular frente aos conservadores e aos progressistas.
Da amizade: ritmos narrativos na historiografia literária de Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda
O interesse na formação literária e nos sentidos do Modernismo foi compartilhado por Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) e Antonio Candido (1918-2017). No entanto, ambos produziram panoramas da literatura nacional que, a despeito do acabamento ou inacabamento, demonstram resultados discretamente distintos. Se, por um lado, Candido propõe uma historiografia literária sentimental, pautada na transição das preceptivas clássicas para emergência de uma sensibilidade local, de outro, Sérgio Buarque organiza sua historiografia literária por meio da tópica, tornando-a o eixo analítico de seu panorama erudito. Em ambos os casos, a historiografia literária articula-se com o momento da superação de uma sensação de desterro, identificada nas raízes ibéricas ou na literatura comum. Todavia, o desejo compartilhado de descrever/engendrar a superação da sensação de desterro acaba por indicar formas diferentes de se compreender a expressão barroca e, por conseguinte, ritmos narrativos distintos na formação literária nacional, oscilando entre morosidade e aceleração.
Resenhas
O desencantamento da literatura: o romance de formação de Franco Moretti
Resenha do livro: MORETTI, Franco. O romance de formação. São Paulo: Todavia, 2020, 416 p.
Um debate egiptológico sobre o pensamento mágico
Resenha do livro: STEGBAUER, Katharina. Magie als Waffe gegen Schlangen in der ägyptischen Bronzezeit. Ägyptologische Studien Leipzig, Band 1, 2019, 343 p.
Arte egípcia para Brasileiros
Resenha do livro: PEREIRA, Ronaldo Guilherme Gurgel. Texto, imagem e retórica visual na arte funerária egípcia. Rio de Janeiro: Autografia, 2019. 230 p.
