nº 48 / V. 22
Setembro - Dezembro 2021
Dossiê: Pandemias e epidemias em perspectiva histórica
O número 48 do volume 22 de Topoi. Revista de História inaugura nosso primeiro dossiê temático, Pandemias e epidemias em perspectiva histórica, coordenado pelos professores Gilberto Hochman, da Fiocruz, e Anne-Emanuelle Birn, da Universidade de Toronto. O dossiê é aberto com um texto introdutório, assinado pelos coordenadores e segue com um instigante artigo em que historiadores de diversas instituições do Brasil, Colômbia, Chile, Cuba, India e Estados Unidos debatem acerca do impacto da pandemia de COVID-19 na atuação de historiadores e nas práticas historiográficas. O dossiê traz também a público seis artigos inéditos e três resenhas, que examinam os impactos econômicos, políticos e culturais das epidemias e pandemias na sociedade. Além do dossiê, o número apresenta também outros quatro artigos e uma resenha, que fazem jus à sua tradição de excelência acadêmica.
Artigos
Pandemias e epidemias em perspectiva histórica: uma introdução
O artigo apresenta as principais questões e os desafios da história e dos historiadores na análise das epidemias e pandemias. Aborda a importância da produção histórica brasileira e latino-americana nesse campo para a compreensão das epidemias como fenômenos globais e suas tendências atuais. Discute a pandemia de COVID-19 na geração de demandas crescentes por análises históricas das epidemias do passado e conclui apresentando os artigos do dossiê.
História, historiadores e a pandemia de COVID-19
Esse artigo apresenta, a partir de uma provocação a nove historiadoras e historiadores de diferentes instituições e países, o impacto da pandemia sobre o seu ofício e sobre o campo da história. As suas reflexões foram desenvolvidas a partir de três perguntas: (1) De que maneiras viver sob a pandemia atual afetou seus escritos ou sua reflexão histórica? Isso trouxe novas questões à tona ou o incentivou a repensar alguns de seus trabalhos anteriores?; (2) (Como) os historiadores devem se envolver nos assuntos públicos relacionados ao contexto pandêmico atual? Os historiadores devem se envolver na formulação de políticas públicas? É apropriado que os historiadores desempenhem papéis ativos na mídia ou devemos recuar e deixar que nossas publicações falem por si mesmas?; (3) Que temas históricos, perspectivas e tópicos estão ausentes na historiografia publicada / produzida durante esses anos de pandemia? Quais textos ou tipos de trabalho você mais apreciou?
History, historians and the covid-19 pandemic
This article presents, through a provocation to nine historians from different institutions and countries, the impact of the pandemic on their profession and on the field of history. Their reflections were developed from three questions: (1) In what ways has living under the current pandemic affected your historical writing or thinking? Has it brought new questions to the fore or pushed you to rethink some of your past work?; (2) (How) should historians engage in public affairs relating to the current pandemic context? Should historians be involved in policymaking? Is it appropriate for historians to play active roles in the media or should we step back and let our publications speak for themselves?; (3) What historical themes, perspectives, and topics are missing from the historiography published/produced during these pandemic years? What pieces/kinds of work have you most appreciated?
Parca vida, grande morte: pandemias, epidemias e memória das imagens na Amazônia de finais do século XIX e inícios do século XX
Este artigo propõe uma análise sobre a questão da doença e da morte nas representações artísticas em coleções de pintura de Belém do Pará entre o final do século XIX e início do século XX. Para isso, propõe uma leitura transversal a partir de questões impostas no presente, na pandemia de covid-19, como recurso heurístico comparativo. Trata-se, portanto, de estabelecer um diálogo entre presente e passado por meio das imagens, potências, reverberações, registros discursivos e exposições museológicas. Assim, doenças retratadas na pintura, como o câncer e a tuberculose, vistas no quadro das epidemias da belle-époque, são agora analisadas não somente no quadro das comorbidades da pandemia do tempo presente, mas também como repertório cognitivo da própria história e da memória das imagens na Amazônia.
La viruela y las políticas de inmunización en Argentina en el largo plazo
La historia de la viruela en Argentina, peligrosa enfermedad infecciosa y epidémica, se estudia a través de las diversas políticas públicas desde el siglo XIX al XX. Se enlaza a la enfermedad y a su principal terapia, la vacuna, que involucra las prácticas médicas y el derecho al uso individual del cuerpo, frente al significado social y colectivo inmerso en la inmunización universal. También se analiza la relación entre los gobiernos de diverso signo político y la comunidad internacional frente a la producción de vacunas y las campañas de vacunación desde su implementación hasta la erradicación de la enfermedad.
“Nós não compreendemos exatamente o que ela quis dizer com ‘vômito negro’”: Fundação Rockefeller, ciência e a epidemia de febre amarela de 1926
Este artigo analisa a incidência da febre amarela no Nordeste brasileiro no ano de 1926 e os seus desdobramentos científicos. Após a epidemia, foram realizadas inspeções em cidades nas quais ocorreram surtos, no intuito de refutar a existência da amarílica. Além disso, com o redirecionamento das atividades da Fundação Rockefeller, foi criado o laboratório da febre amarela, em Salvador, em 1928. Utilizam-se como fontes correspondências, relatórios e diários da Fundação Rockefeller e jornais brasileiros para compreender as especificidades da epidemia. O evento de 1926 foi de grande importância para o desenvolvimento da saúde internacional e influenciou estratégias e ações no controle da amarílica.
A pandemia nas lives semanais: o uso de atenuadores na retórica anticrise de Jair Bolsonaro
Este artigo examina os discursos de Jair Bolsonaro nos primeiros meses da pandemia de coronavírus no Brasil postos a público no programa Live da Semana, protagonizado pelo presidente em seu canal do YouTube. Argumentamos que o tratamento discursivo empregado por Bolsonaro à epidemia foi francamente amparado no uso de procedimentos atenuadores, estratégia retórica que busca controlar os efeitos de sentido dos atos de linguagem, imprimindo tons menos peremptórios a alguma asserção potencialmente ameaçadora. Nesse espaço de enunciação, projetado para interlocutores com quem ele compartilha uma identidade ideológica, Bolsonaro intensifica laços político-afetivos de intimidade capazes de minimizar e normalizar o contágio e as mortes ocorridas pela pandemia, isentando o governo federal de responsabilidade.
“Onde as forças vivas do trabalho se ajuntam em desmedida”: dinâmicas da reprodução do capital em São Paulo durante a epidemia de febre amarela
O presente artigo aborda as dinâmicas de reprodução de capital nos investimentos no mercado de aluguéis de moradias coletivas na Santa Ifigênia, bairro central de São Paulo, durante a epidemia de febre amarela que atingiu algumas regiões do Brasil nas décadas finais do século XIX. Nos centramos principalmente na atuação de Carlo Gilardi, investidor urbano do mercado de aluguéis, imigrante proveniente da região de Piemonte, Itália, para explorar as relações entre a colonialidade, as epidemias e as estratégias de controle urbano da população urbana despossuída. Os discursos sobre as aglomerações urbanas são analisados a partir do cruzamento de fontes primárias, especialmente o relatório de inspeção dos cortiços elaborado por uma comissão designada pelo poder público em 1893, pedidos da Série Obras Particulares e registros de transações fundiárias.
Roupas de segunda mão: consumo, doença e descarte (São Paulo, 1900-1914)
Os sistemas de trocas, vendas e transmissões de roupas de segunda mão formam práticas que podem ser reconhecidas na longa duração histórica. No início do século XX, esses sistemas foram confrontados com as formas de consumo que acionavam os produtos novos como testemunhos da modernidade. Este artigo parte do clássico episódio dos experimentos chefiados por Emílio Ribas, no ano de 1903, para se chegar ao estudo dos medos e dos usos que as pessoas fizeram das indumentárias de segunda mão. O argumento aqui apresentado é que as populações, perante os diferentes saberes em disputa, num período demarcado pelo encontro entre várias epidemias e de expansão do capitalismo industrial, produziram novas apreensões sobre as roupas utilizadas por outrem, revigorando a conexão entre saúde e novidade. Essa apreensão impulsionou a cultura de consumo baseada no descarte, na cidade de São Paulo, no período entre 1900 e 1914.
Resenhas
História com maiúscula de um minúsculo inseto
Resenha do livro: LOPES, Gabriel. O feroz mosquito africano no Brasil: o Anopheles gambiae entre o silêncio e a sua erradicação (1930-1940). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2020. 227 p.
Sobre a “mãe das pandemias”
Resenha do livro: SCHWARCZ, Lilia M; STARLING, Heloísa M. A bailarina da morte: a gripe espanhola no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020, 375 p.
Evangélicos, bolsonarismo e a pandemia fundamentalista
Resenha do livro: PY, Fábio. Pandemia cristofascista. São Paulo: Recriar, 2020,. 53 p. (e-book)
