nº 47 / V. 22
Maio - Agosto 2021
O número 47 do volume 22 de Topoi. Revista de História é aberto pelo excelente texto de Andrea Daher sobre as polêmicas que se desenvolvem em torno da tradução do escritor português António Feliciano de Castilho do Fausto de Goethe. O fascículo apresenta também outros onze artigos e três resenhas que fazem jus à sua tradição de excelência acadêmica.
Artigos
Traduzir de ouvido, traduzir para ouvir. O Fausto português de António Feliciano de Castilho
No século XIX, a cegueira como marca original dos primórdios da poesia foi louvada ou vituperada, segundo o grau de adesão dos representantes da modernidade literária à sacralidade que até então caracterizava o poeta cego. Este foi o caso da tradução do Fausto de Goethe pelo escritor português António Feliciano de Castilho, em 1872, que deu início à polêmica conhecida como a Questão do Fausto. A contenda produziu uma memória em que estão inscritas as marcas de oralidade que condicionaram a confecção da tradução, considerada, neste texto, a partir de perspectivas que permitem evidenciar o valor do oral na ordem do discurso.
Marcello Caetano: história, historiografia e identidades nacionais
O presente artigo tem por objetivo analisar a produção historiográfica de Marcello Caetano privilegiando seus escritos a respeito das relações entre poder central e poderes locais, bem como as continuidades e descontinuidades nos sistemas administrativos portugueses. Será dada ênfase, por um lado, ao papel que ainda hoje Marcello Caetano mantém diante dos debates acerca da história e da historiografia portuguesas; por outro, procurar-se-á discutir em que medida os textos historiográficos de Caetano abordam uma das temáticas mais constantes entre aqueles que investigam a história de Portugal, dentro ou fora do país: a questão das identidades nacionais.
Os intermediários anônimos da autoria: Raízes do Brasil e o aparecimento difuso do nome “S(é)rgio Buarque de Hol(l)anda”
Analisar as resenhas propagandísticas e/ou sem identificação de autoria divulgadas à época do surgimento, em 1936, do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, é o objetivo do presente artigo. Tais papéis se materializaram, sobretudo, na imprensa, e circularam de forma majoritária por inúmeras cidades do território nacional. Atento aos vestígios por vezes aparentemente insignificantes da documentação, o estudo ora apresentado visa a compreender a recepção e os percursos da lenta emergência da figura-autor em destaque.
O monge e o demônio etíope: raça e discretio nas Collationes Patrum de João Cassiano (426-428)
João Cassiano escreveu as Collationes Patrum entre os anos 426 e 428, num período em que já estava estabelecido num mosteiro nos arredores da cidade de Marselha, na Gália. Nesse documento, abordou diversos temas sobre a vida monástica, dentre eles, a virtude da discretio. João Cassiano incluiu também narrativas ilustrativas para seus argumentos, sendo que em algumas delas demônios em forma de etíopes instigavam os monges aos vícios – o que se alinhava aos discursos raciais que circulavam o contexto mediterrânico. O objetivo deste artigo é analisar as relações entre os demônios em forma de etíopes e o conceito de discretio nas Collationes Patrum.
“Capazes de trabalhar”: domínio, política e cultura nas relações de trabalho do Atlântico Sul (séculos XVII e XVIII)
Este artigo é uma primeira abordagem das diferentes modalidades e relações de trabalho que se instituíram no Reino de Angola e na América portuguesa, nos séculos XVII e XVIII. A ênfase recai sobre as possibilidades de comparação das estratégias de domínio, controle e exploração da mão de obra das populações locais nos dois lados do Atlântico. Interessa-nos também compreender as formas de organização do trabalho de indígenas e africanos, ou seja, o próprio conceito de trabalho e sua relação com os demais âmbitos da vida social, os ritmos e tempos de trabalho, conhecimentos e técnicas, padrões de disciplina no cotidiano dos trabalhadores, antes das políticas de controle coloniais e as mudanças que elas causaram após sua implementação. Por outro lado, pretende-se conhecer como trabalhadores de variada origem e condição social vivenciaram modalidades diferentes de trabalho (não-escravo e compulsório), e elaboraram formas de resistência, negociação, (re)inventaram novas práticas culturais e de trabalho e criaram soluções para confl itos.
Missões e devoções no “Nordeste” do Brasil: a atuação eclesiástica e a formação de uma taumaturgia em torno do Frei Damião de Bozzano (1930-1940)
Neste artigo, analisamos o projeto missionário do frade capuchinho Frei Damião de Bozzano, especialmente durante a sua atuação em parte do “Nordeste” do Brasil nas décadas de 1930 e 1940. Através das propostas da História Cultural, traçamos um perfil missionário do eclesiástico, a partir do seu ingresso na Ordem Capuchinha, com destaque para os seus estudos, funções religiosas, a imigração para o Brasil e a construção de uma devoção, constituindo-se como imprescindíveis para a compreensão dos projetos católicos e as suas relações com as questões históricas, políticas e sociais do início do século XX. Para isso, foram utilizados documentos confessionais e pessoais, periódicos, memórias e publicações do religioso, com o objetivo de compreender a estruturação das atividades da sua ordem no país, especialmente a construção das representações de santidade entre os fiéis.
Triste fim de Policarpo Quaresma: as margens e os bloqueios
O artigo pretende oferecer uma leitura do romance Triste fi m de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, atenta ao termo usado por Adelaide para descrever o pensamento e as atividades de seu irmão Policarpo: mania. Busca-se salientar o funcionamento desse termo no romance, destacando certos contextos e personagens marginais, como Maria Rita, Anastácio, Felizardo e Ismênia. Sublinha-se, concluindo, a importância de Olga enquanto linha de fuga do ciclo de decepções vivido pelo protagonista.
Como se tornar um bolsista da Fundação Rockefeller: trajetórias de médicos do Instituto Oswaldo Cruz em formação na Universidade Johns Hopkins (1919-1924)
Este texto tem como objetivo analisar a trajetória de médicos brasileiros que estudaram no Instituto Oswaldo Cruz e, posteriormente, foram fi nanciados pela Fundação Rockefeller para estudar na Johns Hopkins University. As fontes utilizadas foram correspondências trocadas entre os escritórios da agência filantrópica no Brasil e nos Estados Unidos, coletadas no Rockefeller Archive Center, uma tese de doutoramento, um relatório médico e fontes orais. A análise desses documentos auxiliou a compreender os conflitos, negociações e impasses na seleção dos bolsistas enviados aos Estados Unidos, a formação na universidade norte-americana e o seu retorno ao Brasil, entre 1919 e 1924. Trajetórias de formação profissional internacional também foram marcadas por questões regionais e locais, e por trocas de conheci mentos sobre saúde pública.
As lindas toilletes de Aymond: performance de gênero como trabalho (1920-1950)
O presente artigo apresenta esforço no sentido de promover diálogo entre os campos da história social do trabalho e dos estudos de gênero através da trajetória profissional do artista transformista Norberto Aymonino e de sua personagem Aymond. O artista argentino, que se apresentou nos palcos brasileiros entre 1920 e 1955, tinha talento reconhecido e ostentava beleza e luxuosidade. Ao mesmo tempo que ele firmava contratos com importantes empresas do ramo das diversões, não lograva reconhecimento como grandes artistas, nem os mesmos valores de cachês pagos a outros artistas de variedades. Procuramos analisar como tal diferença profissional entre os artistas transformistas e demais intérpretes foi produzida e vivenciada a partir da experiência de Aymond.
Imagens e textos de propaganda sobre a União Soviética na revista Die Wehrmacht (Berlim, 1939-1944)
Este artigo analisa como a linha editorial da revista Die Wehrmacht (órgão oficial das Forças Armadas alemãs) alterou-se signifi cativamente antes e durante o desenrolar da guerra na frente leste na Segunda Guerra Mundial. A princípio favorável aos “russos”, logo passou a atacar veementemente a União Soviética em suas reportagens, mas mesmo assim chegou a reconhecer a superioridade militar da URSS após a derrota em Stalingrado. A publicação iniciada em 1936 tornou-se um sucesso editorial na Alemanha nazista e alguns países ocupados, atingindo a tiragem de quase dois milhões de exemplares no ano de 1944. Ao mesmo tempo, cumpre explicar a materialidade da publicação, a atuação das chamadas Companhias de Propaganda (Propagandakompanien, PK), as quais produziam material propagandístico para a revista, e do aparato governamental responsável pelo controle do periódico, como o Departamento de Propaganda da Wehrmacht (WPr.) e o Ministério da Propaganda e Esclarecimento Popular (RMVP).
A Guerra das Malvinas/Falkland revisitada, 1982: um estudo com fontes (militares) brasileiras
O artigo examina as percepções e interpretações de assessores do ministro do Exército brasileiro contidas em um conjunto de relatórios sobre o conflito militar anglo-argentino no Atlântico Sul, entre abril e junho de 1982. A pesquisa enfoca três tópicos: uma aproximação ao conflito sob a perspectiva Oeste-Oeste, a dimensão latino-americana do conflito, e as implicações de uma mudança de regime político na Argentina decorrente da derrota no conflito. O ensaio de interpretação sugere que a pesquisa acadêmica com documentos militares é particularmente significativa quando o problema-objeto é correlacionado aos temas de segurança e defesa.
A fotografia para além do registro histórico: o trabalho social, pedagógico e artístico de Tina Modotti nas “Escuelas Libres de Agricultura”
A década de 1920 no México foi marcada por intensa produção cultural. Tina Modotti e outros artistas das mais variadas áreas iniciaram um projeto que visava produzir uma arte que fosse pública, ou seja, que fosse feita pelo povo e para o povo. Nesse sentido, a arte mexicana dessa década é marcadamente política. Tina foi uma fotógrafa italiana que se mudou para o México no início dos anos 1920. Seu trabalho inclui fotografias de murais, camponeses, símbolos comunistas, manifestações de trabalhadores, plantas, arquitetura, caveiras e escolas agrícolas, dentre outras temáticas. Suas fotografias foram publicadas em inúmeros periódicos, desde revistas de arte até atas de criação dessas escolas. Este artigo analisa as fotografias de Tina que compõem as atas de criação e desenvolvimento das escolas agrícolas, entendendo-as como uma produção que possui, ao mesmo tempo, um sentido social, pedagógico e artístico.
Resenhas
Redemocratização no Brasil: continuidade ou ruptura?
Resenha do livro: LEMOS, Renato. Ditadura, anistia e transição política no Brasil (1964-1979). Rio de Janeiro: Consequência, 2018. 544p.
Mosaico de trás para frente
Resenha do livro: GESTEIRA, Heloisa Meireles; LEAL, João Eurípedes Franklin; SANTIAGO, Maria Claudia (orgs.). Formulário médico. Manuscrito atribuído aos jesuítas e encontrado em uma arca da igreja de São Francisco de Curitiba. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2019. 434 p.
“A rua era das negras e dos negros” – Os ganhadores que pararam Salvador
Resenha do livro: REIS, João José. Ganhadores: a greve negra de 1857 na Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 452p.
