nº 43 / V. 21

Janeiro - Abril 2020

Artigos

Resistência às mordaças: história e luta contra a opressão na literatura de Assis Brasil

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Por: Cláudia Cristina da Silva Fontineles; e Pedro Pio Fontineles Filho

A literatura produzida pelo escritor Francisco de Assis de Almeida Brasil é plural nos seus estilos e temáticas, assumindo traços sociais, culturais e históricos diversos, atingindo, também, públicos e leitores variados. O presente estudo, assim, tem o objetivo principal de analisar o olhar de sua escrita, com simbologias e representações, sobre o regime militar brasileiro, por meio de seu livro. Os que bebem como os cães, publicado em pleno período ditatorial, no ano de 1975. Metodologicamente, o estudo faz uma leitura analítico-interpretativa de sua literatura, especifi camente da obra em destaque, relacionando-a com os debates históricos e historiográfi cos acerca das inter-relações entre história e literatura, com o foco no interstício histórico-social do regime militar brasileiro. O livro de Assis Brasil é tomado como um discurso que (re)cria a realidade, nos limiares entre a narrativa histórica e ficcional, com viés de registro, de denúncia e de reflexão.

Os desenhos da cidade: as representações da cidade do Natal no século XVII

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Por: Rubenilson Brazão Teixeira

A cartografia histórica referente ao século XVII privilegiou alguns poucos núcleos urbanos do Brasil, com desenhos relativamente precisos de sua área urbana e de seu entorno. Não parece ter sido o caso para a maioria das localidades então existentes, como Natal/RN, para a qual é de se questionar até que ponto os poucos mapas daquela época representam a realidade urbana da cidade de então. Este artigo discute essa questão a partir da representação gráfica da cidade por um conjunto de mapas, interpretando-os a partir do confronto com manuscritos coevos existentes sobre a cidade. Em que pese algumas incongruências e lacunas, os mapas analisados de fato permitem uma percepção relativamente precisa sobre o que era a cidade e seu entorno no período em apreço.

Diabos e diabinhos: uma história social e carnavalesca dos sentidos da roupa

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Por: Poliana dos Santos

Este artigo tem como objetivo compreender os sentidos simbólicos da roupa no começo da República brasileira, enfocando a fantasia carnavalesca de diabo, que ganhou popularidade no século XIX e foi praticamente abolida no século XX. Para isso, pretendemos elaborar um estudo comparativo dos signifi cados da vestimenta por meio da literatura, da crônica jornalística e da caricatura. Os textos "A vingança" e "O moleque" de Lima Barreto serão basilares para entender como os valores sociais se apresentam na forma da roupa, apresentando-se como elementos-chave nesta investigação. A discussão será feita a partir de uma abordagem cultural da história e da análise literária.

Religiosos em armas: o motim dos agostinhos da Congregação da Índia Oriental (Goa, 1638)

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Por: Margareth de Almeida Gonçalves

Este artigo analisa o movimento de independência e autonomia dos religiosos da Congregação da Índia Oriental, na tentativa de ruptura com a casa mãe da Província de Portugal da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, no ano de 1638. O uso de armas pelos religiosos sublinhou a violência da revolta. A década de 1630 correspondeu a anos de tensões para os agostinhos do Oriente com ressonâncias nos centros de poderes régio e eclesiástico em Goa, Lisboa, Madri e Roma. Parte-se da leitura de códices, com vasta documentação gerada no âmbito da burocracia da Congregação de Propaganda Fide em Roma, acrescida de um conjunto de missivas entre o vice-reinado do Estado da Índia e o centro de Madri. A reflexão desdobra-se em três segmentos: a ação missionária agostiniana no Oriente; as conjunturas imperiais da década 1630 e as instituições agostinianas em Goa; e o levantamento de junho de 1638

Batismo e compadrio escravo no Sul de Mato Grosso (1836-1862)

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Por: Divino Marcos de Sena

No século XIX, as relações de compadrio instituídas pela Igreja Católica e formalizadas pelo batismo favoreciam a união entre indivíduos e famílias. Além do sentido relacional, os escravos da freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Albuquerque utilizaram-se estrategicamente desse sacramento. De acordo com a documentação paroquial, o batismo poderia servir para atingir objetivos que variavam de escravizado para escravizado e conforme os padrinhos escolhidos para os seus filhos. Este artigo discute as relações construídas ou intensificadas por escravos dessa freguesia, pertencente à província de Mato Grosso, Império do Brasil, mas em fronteira litigiosa, no período anterior à sua ocupação pelas tropas de Solano Lopez, durante a Guerra do Paraguai contra a Tríplice Aliança.

Edgar Allan Poe e o Mare Tenebrarum

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Por: Cleber Vinicius do Amaral Felipe - Universidade Federal de Uberlândia

A tempestade ocupou lugar de destaque nos contos de Edgar Allan Poe, especialmente por se tratar de um fenômeno conveniente à produção de um locus horrendus, um lugar tenebroso por meio do qual seria possível despertar em seus leitores os efeitos pretendidos. No entanto, antes do movimento romântico do século XIX, o incidente marítimo, enquanto tópica, mostrou-se recorrente em diferentes gêneros retórico-poéticos, especialmente nos exemplares épicos. Pretende-se, nesse artigo, mapear algumas descrições de tempestades para, em seguida, termos condições de analisar a maneira como Poe imitou essa tradição para a elaboração de um conto em particular, intitulado "Manuscrito encontrado em uma garrafa" ("Manuscript found in a bottle"), publicado em 1833.

O “racialista vacilante”: Nina Rodrigues e seus estudos sobre antropologia cultural e psicologia das multidões (1880-1906)

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Por: Filipe Pinto Monteiro

A obra do médico e antropólogo Raimundo Nina Rodrigues é tradicionalmente enquadrada nos moldes de um discurso cientificista, típico do fi nal do século XIX, marcado pelo racialismo dogmático, importado e adaptado ao cenário nacional. Este artigo problematiza tal panorama, comum aos estudos do pensamento social brasileiro, e desloca a herança intelectual rodrigueana da esfera de um darwinismo-social exacerbado, do típico determinismo racial, para áreas de estudos antagônicas. Tomando como eixo de reflexão textos seus sobre antropologia cultural e psicologia gregária, o objetivo é abrir caminhos pouco explorados pela historiografia, a partir da adoção, pelo médico maranhense, de leituras da chamada escola evolucionista-social e também da sociologia tardiana. O contato e o acomodamento de propostas que divergiam do conteúdo oitocentista paradigmático fizeram do conjunto da obra de Nina Rodrigues – em especial o recorte da problemática racial – um objeto intrincado, arquétipo do momento tensionado em que viviam as ciências de seu tempo.

Uma pax monetaria? Impasses do sistema monetário português no tempo dos Filipes (1580-1640)

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Por: Pedro Puntoni - Universidade de São Paulo

No século XVII, o fenômeno monetário era central para o entendimento da economia, notadamente no Mundo Ibérico, onde os fluxos de metais americanos exigiam uma posição sobre seu impacto nas atividades mercantis e produtivas, e na sua articulação com o comércio ultramarino e a gestão das economias coloniais. Este trabalho procura entender os impasses da política monetária filipina para o reino e o Império de Portugal. A União de 1580 manteve, além das “leis, estilos, liberdades, isenções, casa Real e ofícios” da Coroa portuguesa, a moeda com cunho português. Assim, Filipe II permitia que o seu direito exclusivo (regalia) de cunhar a moeda fosse interpretado na mesma chave da conservação da identidade econômica e jurídica de Portugal. Durante todo o período, os Filipes não alteraram o valor da moeda portuguesa, estabilizando o câmbio do real em relação às outras unidades de conta europeias. A chegada em grande quantidade da prata americana, por outro lado, permitia a expansão do meio circulante de Castela, que acabou, no período, intoxicando o meio circulante português. Esse arranjo instável coloca as bases para a transformação que se seguirá no período da Restauração, com sucessivas mutações monetárias.

Conversas de lotação: política, cidade e cotidiano nas crônicas cariocas de José Lins do Rego (1944-1956)

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Por: Bernardo Borges Buarque de Hollanda; e Regiane Matos - Getulio Vargas Foundation (Fundação Getulio Vargas)

O presente artigo argumenta que uma série inédita de crônicas de autoria de José Lins do Rego (1901-1957) contribui para compreender importantes aspectos da vida social e política do Rio de Janeiro, então capital da República, durante as décadas de 1940 e 1950. Os milhares de microtextos publicados pelo romancista nordestino no jornal O Globo, em coluna intitulada Conversa de lotação, nunca lançados em livro pelo escritor, revelam o cotidiano do Distrito Federal sob a ótica intersubjetiva de seus habitantes. A base para tanto são as interações diárias do cronista com os passageiros de um meio de transporte coletivo, característico da cidade em meados do século XX, em seu translado da Zona Sul para o Centro da cidade. A seleção de artigos aqui reproduzida procura ser uma amostra das questões debatidas nessa espécie de espaço público transitório, o veículo lotação, por intermédio de seus cidadãos-passageiros. Para efeito de recorte de uma produção bastante extensa, enfocamos dois ângulos principais: de um lado, o debate nacional em torno das eleições para a presidência da República, em outubro de 1950; de outro, os problemas de âmbito municipal, relativos ao crescimento urbano da cidade no princípio daquele decênio, a partir dos relatos capturados pela crônica de Lins do Rego, acerca dos engarrafamentos e de outros transtornos vivenciados pela população no dia a dia da cidade do Rio de Janeiro.

Resenhas

António Manuel Hespanha, o Antigo Regime luso e a historiografia brasileira: notas sobre um diálogo transatlântico

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Por: Antonio Carlos Jucá de Sampaio

Em fevereiro do ano passado, Hespanha publicou o que acabaria por ser seu último livro, Filhos da terra (2019). Não foi pensado como último e de forma alguma representa um balanço de sua obra. Representa, isso sim, o estágio final de sua reflexão, e por isso nos interessa aqui. Nessa obra, ele se dedica a analisar as comunidades mestiças que compunham o que foi denominado de “Império na sombra”, ou seja, aquelas que, mesmo estando fora dos domínios formais do Império, consideravam-se (e/ou eram consideradas) “portuguesas”. Na introdução, Hespanha revela que buscou inicialmente fazer uma análise institucional de tais comunidades, mas logo percebeu que esta era inadequada para estabelecer os traços mais característicos de sua organização e da definição de sua identidade. As instituições formais de governo e o direito ofi cial cediam lugar aí a “processos mais difusos de organizar e de dominar”

Discurso sobre o sistema e a vida de Vico, de Jules Michelet

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Por: Maria Juliana Gambogi Teixeira

Este documento apresenta uma tradução comentada do “Discurso sobre o sistema e a vida de Vico” e seu Prólogo, ambos escritos por Jules Michelet (1798-1874). Esses textos introduzem e apresentam a obra de Giambatistta Vico (1668-1744), em particular sua Ciência nova, que Michelet traduziu e publicou em 1827 e 1835.

História cultural, linguagem fílmica e ditadura militar brasileira

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Por: Igor Barbosa Cardoso

Resenha do livro: DELLAMORE, Carolina; AMATO, Gabriel; BATISTA, Natalia (orgs.). A ditadura na tela: o cinema documentário e as memórias do regime militar brasileiro. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2018.

A família Civita e a imprensa na América Latina

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Por: Aline de Jesus Nascimento

Resenha do livro: SCARZANELLA, Eugenia. Uma editora italiana na América Latina: o Grupo Abril (décadas de 1940 a 1970). Campinas. Editora da Unicamp, 2016.

A religião vodum e seus indeléveis laços atlânticos

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Por: Leandro Gonçalves Rezende

Resenha do livro: PARÉS, Luis Nicolau. O rei, o pai e a morte - a religião vodum na antiga Costa dos Escravos na África Ocidental . São Paulo: Companhia das Letras, 2016.