Artigos
Discursos “ímpios e sediciosos” em Portugal no final do século XVIII
Este artigo se volta para os discursos considerados ímpios e sediciosos que circularam, em Portugal, ao longo dos anos 1790. O seu objetivo é avançar na compreensão dos escritos que, para além de um corpus textual de livros proibidos hoje considerados clássicos, foram enquadrados no universo da sedição política. Para isso, foram selecionados dois casos específicos: o primeiro envolveu a publicação do livro Medicina Theologica, por Caetano Dragazzi; o segundo, os manuscritos escritos por Joaquim José Pedro da Veiga. Tanto um como o outro foram presos como sediciosos por causa de suas ideias sobre a religião. Pouco estudados, esses dois casos revelam não apenas os temores das autoridades régias perante determinados discursos, mas alguns dos debates e preocupações que consumiram a realidade lusitana ao final do século XVIII.
Monasticismo, arte e riqueza na Gália tardo-antiga
Peter Brown recentemente descreveu a conversão de Paulino de Nola ao monasticismo, em 394, como a renúncia da mística da riqueza. De acordo com Brown, essa mística, perceptível nos vestígios materiais das uillae do século IV, expressava esplendor e prazer. O refinamento da arquitetura, o luxo das decorações e o cuidado do corpo celebravam a riqueza dos proprietários e a abundância da natureza. Meu objetivo neste artigo é usar o conceito de Brown de mística da riqueza como um termômetro, para entender como outros monges aristocratas da Gália dos séculos IV e V conciliaram sua conversão ao monasticismo com suas próprias riquezas. Argumento que sua conversão podia assumir sentidos muito diferentes. Nem todos os monges aristocratas sentiam a necessidade, como Paulino, de rejeitar os sinais que os identificavam como homens ricos e de dedicar sua fortuna a um santo ou a Deus.
As Notícias recônditas e os escritos contra o Santo Ofício português na época Moderna (1670-1821)
Durante a época Moderna, a Inquisição não foi uma instituição consensual. Diversos indivíduos e grupos sociais lançaram críticas ao seu procedimento e à sua ação por meio de panfletos, memoriais ou mesmo de sua própria voz para forjar, posto que sem intenção, uma imagem literária do Santo Ofício. Fato de monta, tais escritos ganhavam certa unidade dentro de uma diversidade de personagens que ocupavam lugares díspares ou mesmo tinham múltiplas intenções com suas palavras. Assim, no conjunto, chamaremos — malgrado a imprecisão do termo — de literatura anti-inquisitorial estes escritos, embora a maior parte dos autores fosse crítica apenas do procedimento e dos estilos e não tiveram a intenção de acabar com o Tribunal. Assim, este artigo procura analisar três aspectos das cinco edições do opúsculo conhecido como Notícias recônditas e póstumas sobre o modo de proceder da Inquisição: I) autoria; II) temática; III) edições e circulação.
“Vou tentar ajudar minha família escrevendo essa carta”: jogos de gênero em cartas enviadas da Alemanha para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial
O artigo é baseado em cartas enviadas entre 1946 e 1950 da Alemanha à prefeitura municipal de Blumenau (SC), nas quais os remetentes pedem mantimentos, vestuário e intermediação para imigrar, localizar parentes e conhecidos ou iniciar correspondência com habitantes. Neste texto eu discuto a agência exercida por mulheres e homens por meio do envio e redação de cartas-pedido e os “jogos de gênero” presentes na interlocução com o destinatário.
Resistir era preciso: O Decreto de Emancipação de 1978, os povos indígenas e a sociedade civil no Brasil
O Decreto de Emancipação de 1978 e a atuação da sociedade civil organizada, permeados pelo emergente protagonismo indígena, compõem o objeto central de reflexão deste artigo. O empoderamento da oposição às forças políticas autoritárias, que desejavam impor o referido decreto, é o que sustenta a hipótese de que a cena histórica e política que se formou em torno deste projeto de emancipação forçada dos indígenas representa o segundo acontecimento fundador do Movimento Indígena no Brasil. Uma das considerações a que se chegou foi a de que o ato de emancipar o índio seria um grande erro do Estado em relação às diversas etnias indígenas do país. A principal fonte histórica utilizada na composição desta discussão, entre outras, foi a publicação da Comissão Pró-Índio de São Paulo, de 1979, Histórico da Emancipação, além de alguns dossiês encontrados no Arquivo Nacional.
Um hipódromo suburbano: a experiência do Club de Corridas Santa Cruz (Rio de Janeiro -1912/1918)
Já há um bom número de estudos históricos dedicados a debater as iniciativas esportivas promovidas na região socioeconomicamente privilegiada do Rio de Janeiro. Não há, todavia, muitas investigações sobre o tema no que tange a outras zonas da cidade, especialmente sobre os subúrbios. A melhor compreensão dessas ocorrências pode ajudar a lançar novos olhares tanto sobre a prática quanto sobre o processo de urbanização. Considerando tais observações, este estudo teve por objetivo discutir a experiência do Club de Corridas Santa Cruz, uma sociedade de turfe que se manteve ativa entre os anos de 1912 e 1918. Especificamente, pretende-se abordar os estigmas e problemas operacionais que enfrentou por ter sido fundada numa área periférica. Para alcance do objetivo, como fontes foram utilizados jornais e revistas publicados no período em tela.
O Apostolado Positivista do Brasil e o SPILTN: propostas e políticas para a questão indígena no Brasil
O presente artigo tem como objetivo analisar as interpretações acerca do Positivismo no Brasil nos primórdios do século XX, principalmente no que tange às populações nativas. A respeito dessas interpretações, o Comtismo postulava a “lei dos três estados”, segundo a qual a humanidade passara pelas etapas: teológica (que se dividia em três idades sucessivas: a fetichista, a politeísta e a monoteísta), a metafísica e a positiva. Os positivistas no Brasil ressaltavam, com base nas ideias de Auguste Comte, que as populações nativas eram fetichistas e estariam no primeiro estágio mental da humanidade. Então, seria necessário ampará-las e protegê-las a fim de que pudessem atingir o estágio mental da civilização. Para alcançar o objetivo mencionado, pretende-se averiguar as propostas elaboradas pelo Apostolado Positivista do Brasil para a questão indígena no contexto de criação do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN) a partir de um conjunto de textos impressos. O SPILTN foi uma nova política federal criada em 1910 pelo Estado, que tratava da questão indígena.
Agências e interações entre africanos e europeus nas expedições britânicas ao rio Níger (1825-1854): os casos de William "Abubakr" Pasco e "Alihéli"
Este artigo procura discutir a atuação de africanos que agiram como “intermediários” nas relações entre as expedições britânicas ao redor do rio Níger entre 1825 e 1854 e as sociedades africanas com as quais interagiram. Os relatos dessas expedições estão entre os primeiros que sistematicamente descreveram determinadas regiões do interior do continente em línguas europeias. Assim, praticamente todas as formas de comunicação necessitavam de tradutores e consequentemente “intermediários”. Compreende-se como “intermediários” os sujeitos que agiram no espaço liminar entre as expedições e seus interlocutores do interior, exercendo diversas atividades como intérpretes, guias, mensageiros e por vezes até mesmo negociadores, num contexto de profundas transformações que recondicionavam as relações entre o Atlântico e a África Ocidental.
“Isso não é um livro de história”: Michel Foucault e a publicação de documentos de arquivos
Entre 1973 e 1982, Michel Foucault dedicou-se à publicação de documentos de arquivo. Em 1973, publicou o memorial de Rivière; em 1977, os extratos do livro de um libertino inglês; em 1978, as lembranças de uma jovem hermafrodita; e em 1982 uma seleta de documentos judiciários. Dividido em duas partes, este artigo busca compreender o que esteve em jogo nesse gesto arquivístico-editorial. Na primeira parte, analisarei as relações existentes entre os textos que compõem esse corpus e como se inserem no quadro, então, de suas pesquisas. Depois, estudarei os deslocamentos existentes entre o projeto de publicação de uma coletânea de arquivos da infâmia e a publicação do livro com documentos da Bastilha. Na segunda parte, apresentarei duas hipóteses sobre os problemas ligados a esse projeto editorial: 1) Mostrarei que se tratava de um estudo das condições extraliterárias da constituição da literatura como saber; 2) Mostrarei como seu empenho em publicar documentos não pretendia apenas dar a palavra aos sem-história, mas assinalar que havia um pensamento em suas falas. Esse empenho chocava-se com um dos principais dogmas historiográficos contemporâneos.
Resenhas
Desarrollar la historia de la metrología en Portugal: aportaciones para el estudio de las medidas de capacidad
Resenha do livro: VIANA, Mário. Estudos de história metrológica. Medidas de capacidade portuguesas. Lisboa: Universidade de Lisboa, Centro de História, 2015, 170p.
Do retrocesso ao sonho
Resenha do livro: MICELI, Sergio. Sonhos da periferia: inteligência argentina e mecenato privado. 1. ed. São Paulo: Todavia, 2018, 184p.
Entrevistas
Interview with Paul Thompson
Paul Thompson is a historian and a sociologist, who has pioneered the development of oral history as a research methodology. He is founding editor of the journal Oral History and founder of the National Life Stories at the British Library in London. He is author of The Edwardians (1975), The Voice of the Past (1978), Living the Fishing (1983), The Myths We Live By (1990), City Lives (1996), Pathways to Social Class (1998), and Jamaican Hands across the Atlantic (2006). In June 2018, Thompson has been at PPGHIS / UFRJ and, after a lecture, he answered questions from professors and students of the program. The event was recorded, transcribed by Daniel Dutra, edited and now published by TOPOI. We thank Matthias Assunção and Lise Sedrez for the collaboration throughout the entire process, as well as their participation in the editing process of the transcribed text. In addition to Assunção and Sedrez, Sílvia Correia, Luiza Larangeira and Henrique Gusmão participated in the work of adapting the text to this version published here.
Entrevista com Marieta de Moraes Ferreira
Marieta de Moraes Ferreira é diretora executiva da Editora da Fundação Getulio Vargas e professora titular aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atua como pesquisadora e professora junto ao Programa de Pós-graduação em História Social da UFRJ. Foi idealizadora e primeira presidente da Associação Brasileira de História oral, tendo também presidido a Internacional Oral History Association. Dirigiu o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil e, mais recentemente, fez parte do grupo que elaborou o Mestrado Profissional em Ensino de História, que coordenou até o fim de 2017. Sua trajetória é marcada principalmente por estudos relacionados à História do Brasil Republicano, pesquisando em campos como a História do Rio de Janeiro, a História oral, História do Tempo Presente, Estudos sobre Memória e História Política. São de sua autoria os livros A História como Ofício - A constituição de um campo disciplinar (Ed. FGV, 2013), Rio de Janeiro: uma cidade na história (Ed. FGV, 2000), Usos e abusos da História oral (Ed. FGV, 1996), dentre outros.
