nº 31 / V. 16
Julho - Dezembro 2015
Artigos
Sobre a Familiar 1.7 de Francesco Petrarca e a polêmica contra os velhos dialéticos
A epístola 1.7 das Familiares de Petrarca, dedicada ao vitupério dos “mestres dialéticos”, nos remete às batalhas travadas ao longo de toda a sua obra. Como é amplamente conhecido, a prosa latina é o campo preferido pelo poeta para expressar seus argumentos contra o saber nos moldes escolásticos conforme praticado nas grandes universidades da época, como a de Paris e a de Oxford. O texto encena o embate entre duas concepções antagônicas de filosofia; entre duas imagens inconciliáveis de sapientia em suas respectivas práticas discursivas: de um lado, como objeto de vitupério, surgem os “dialéticos” ou os magistri artium, providos de técnicas refinadas de argumentação silogística instrumentalizadas em disputationes sem fim, de outro lado, desponta o ethos do sábio que Petrarca forja para si como preceptor de costumes à maneira de Sêneca, emulando uma noção de filosofia de caráter essencialmente moral e prático, como terapia ética contra as paixões e como itinerário para a tranquilidade da alma e para a beatitude eterna.
"Transição de cor": Raça e abolição nas estampas de negros de Angelo Agostini na Revista Illustrada
Angelo Agostini ficou conhecido como um dos principais caricaturistas do Brasil oitocentista. Sua fama se deveu, em grande medida, às imagens que publicou protagonizadas por personagens negros. Nelas, o artista italiano teria sido incansável defensor da causa dos escravos. Neste artigo, busco analisar essas imagens por meio de outras chaves interpretativas. No lugar de festejar o implacável abolicionista, procuro desvendar os sentidos raciais e as lógicas políticas que informavam seus desenhos de negros. Em cada um deles, o ítalo-brasileiro Agostini produz, e reproduz, estereótipos sobre os sujeitos tematizados, definindo seus personagens negros ora como vadios, ora como perigosos e irracionais, ou, ainda, como passivos diante dos horrores da instituição servil. Misturando raça e escravidão na criação desses desenhos, Agostini produz, nesse processo, a própria imagem como um dos heróis da grande causa.
A Impressão Régia do Rio de Janeiro e a colonização dos sertões na construção do novo império português na América (1808-1822)
Este artigo busca uma primeira aproximação a um conjunto de publicações da Impressão Régia do Rio de Janeiro entre 1808 e 1822, que visavam a ressaltar as medidas tomadas pela Coroa portuguesa, estabelecida então no Rio de Janeiro, com o fim de promover a integração política das diferentes regiões surgidas do processo de colonização da América. Essas publicações são abordadas sob o viés da sua importância para a efetivação do projeto de criação de um novo império português na América, nascido das reformas ilustradas do império português, chamando-se a atenção para o papel político exercido pela imprensa na sustentação e legitimação desse projeto político e ressaltando a relação existente entre cultura e poder no reformismo ilustrado português.
Desmontando a Amaro: una re-lectura de la rebelión tupinambá (1617-1621)
La rebelión tupinambá de 1617, liderada por un nativo conocido como Amaro, fue un episodio decisivo en el proceso de la conquista portuguesa de las regiones de Maranhão y Grão Pará. A pesar de ello, conocemos pocos detalles sobre este conflicto, que durante cinco años mantuvo en vilo a las autoridades de la Unión Ibérica y detuvo su expansión por el continente. De hecho, la versión construida por el gobernador Bernardo Pereira de Berredo en la primera mitad del siglo XVIII todavía es hoy la única narrativa disponible sobre la rebelión. A partir de documentación de archivo, este artículo demuestra la parcialidad de dicha narrativa, construida para legitimar la autoridad colonial, y propone un nuevo análisis en el que aumenta el protagonismo de los rebeldes y la complejidad de sus acciones.
Uma nação para ser vista: desvelando o tempo e o espaço nacionais por meio da cor local na historiografia oitocentista
Se durante o século XIX a escrita da história adquire contornos mais precisos, é importante reconhecer o papel da cor local neste processo. O dispositivo assegura, por um lado, o caráter nacional das produções intelectuais e, por outro, oferece meios de legitimação e fidelidade para as narrativas do período. O escopo deste artigo é, pois, não somente reafirmar a associação entre a cor local e a nação, mas sugerir possibilidades de apreensão do dispositivo e, sobretudo, discorrer sobre as implicações e efeitos de seu emprego na elaboração da historiografia. Para isso, recorre-se tanto às prescrições relativas à cor local no contexto francês quanto aos textos da Revista do IHGB e de Varnhagen. Sugere-se, como hipótese, que a cor local é parte do vínculo que se estabelece entre tempo e espaço neste momento, além de possibilitar, devido à sua origem pictural, a criação de uma imagem da nação.
Hierarquia política e poder no Estado do Brasil: o governo-geral e as capitanias, 1654-1681
Este trabalho analisa os governos do Estado do Brasil, identificando e diferenciando suas hierarquias e poderes, caracterizando a relação entre os governadores-gerais e os governadores e capitães-mores das capitanias dessa parte da monarquia pluricontinental lusa, fossem elas de donatário ou régias, anexas ou principais. Conclui, ao contrário do que se tem afirmado, a diferenciação de sua autoridade e o poder e a supremacia dos governadores-gerais.
Julho, 10! As artes da política e a política das artes nos anos 1940
O presente estudo se concentra na peça de teatro Julho, 10!, premiada no Concurso Nacional de Romance e Teatro para Operários, promovido pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio em 1942. Por um lado, busca analisar as especificidades do Estado Novo, problematizando como o contexto histórico se transmutou em texto teatral; por outro, discute a peça premiada, simultaneamente, como parte de uma tradição do teatro popular desde o século XIX e como intervenção nos temas específicos da legislação de proteção social nos anos que antecederam a outorga da Consolidação das Leis do Trabalho.
No baú de Augusto Mina: o micro e o global na história do trabalho
Este artigo discute as relações entre a micro-história e o recente debate sobre a história global no campo dos estudos sobre o trabalho. O texto se desdobra em uma discussão historiográfica e uma análise empírica de um documento, o inventário judicial dos bens deixados por um africano livre de nome Augusto Mina, um marinheiro e trabalhador portuário, que morreu na cidade do Desterro, na Ilha de Santa Catarina, em 1861. O artigo discute o modo pelo qual a análise dos fatos que se conhece da vida de Augusto pode ilustrar as potencialidades e os limites de uma investigação histórica que tente integrar as sugestões teóricas e metodológicas da micro-história aos desafios intelectuais propostos pela história global do trabalho.
“Um eugênico, enfim”: o gaúcho como tipo antropológico na literatura e no discurso social brasileiro
Este artigo analisa a definição da identidade social do gaúcho através de suas manifestações na literatura e no pensamento político brasileiro, a partir de textos de José de Alencar, Apolinário Porto Alegre, Euclides da Cunha, Alcides Maya, Roque Callage e, sobretudo, Oliveira Viana. Este último foi um dos mais importantes teóricos do autoritarismo brasileiro nas décadas de 1920 a 1940 e um dos maiores entusiastas do uso do argumento etnológico aplicado à sociologia brasileira. A caracterização do tipo regional do extremo sul do país, em contraste com os demais tipos humanos brasileiros e com o hispânico, foi utilizada, entre a segunda metade do século XIX e a primeira do XX, para uma afirmação político-sociológica de sua superioridade e seu pretenso papel de vanguarda dos destinos nacionais. Esta ideia tem seu auge na produção sociológica de Oliveira Viana.
Escritos políticos de Francisco Julião no processo de redemocratização do Brasil (1981-1985)
Francisco Julião ficou conhecido, nacional e internacionalmente, pela sua ação frente às Ligas Camponesas, em Pernambuco, entre meados de 1950 e o golpe civil-militar de 1964. Advogado dos camponeses, deputado estadual e federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) foi preso em junho de 1964 e conseguiu asilo político na embaixada do México, no Rio de Janeiro, em outubro do ano seguinte. Na historiografia, esse é o período mais conhecido de sua trajetória política. Este artigo, contudo, estuda as suas ações no momento pós-exílio, a partir de 1979, com destaque para o período da redemocratização do Brasil e, mais especificamente, o movimento de Diretas Já. Procura-se analisar como, nesse período, Francisco Julião operou com o seu passado de líder das Ligas Camponesas, colocando sua memória em diálogo com a escrita sobre o tempo presente, ou seja, o processo de redemocratização do país
Intelectuais, livros e política: Schmidt Editor e José Olympio Editora na divulgação do Integralismo
O artigo busca analisar o papel desempenhado pelas relações entre o fundador da Ação Integralista Brasileira, Plínio Salgado, e os editores José Olympio e Augusto Frederico Schmidt na publicação e divulgação dos livros integralistas. Em um primeiro momento, procura-se compreender a importância que o livro teve para o Integralismo, visto que entre os anos de 1933 e 1937 os intelectuais da AIB lançaram quase cinquenta títulos, sendo a maior parte publicada pela editora José Olympio e pela Schmidt Editor. Argumenta-se, em seguida, que a dinâmica entre amizade, interesses (materiais e ideias) e relações de poder construída a partir do relacionamento de Plínio Salgado com aqueles dois editores foi decisiva para a publicação das obras integralistas, garantindo sua presença no mercado editorial brasileiro e a circulação das ideias da AIB.
Os capitães-mores do Pará (1707-1737): trajetórias, governo e dinâmica administrativa no Estado do Maranhão
O artigo aborda as trajetórias no Real Serviço de seis capitães-mores que governaram a capitania do Pará na primeira metade do século XVIII. Contempla a caracterização dos perfis individuais, os critérios de seleção dos agentes (com base em suas experiências na Europa e no Atlântico português) e expõe, em linhas gerais, o exercício da governação. O trabalho investe, ainda, em uma discussão sobre a dinâmica administrativa na jurisdição do Estado do Maranhão e Grão-Pará, com ênfase nos deslocamentos dos governadores e capitães-generais da sede do governo, em São Luís, para Belém. Verificada a partir da segunda metade do século XVII, essa particularidade da estrutura político-administrativa do Estado do Maranhão estava respaldada nas conjunturas da colonização das conquistas do Norte e chegou a termo em 1751, quando a capital do Estado foi transferida definitivamente para Belém.
O trabalho feminino no espaço doméstico: gênero e classe no Jornal das Famílias
O século XIX brasileiro contou com uma diversidade bastante grande de periódicos dedicados ao sexo feminino. Tanto aqueles escritos por e para mulheres como os que apenas buscavam o público feminino como leitor e consumidor. O Jornal das Famílias (1863-1878), embora tenha contado com algumas colaboradoras, recebeu um grande número de seções assinadas por nomes masculinos. Dentre os principais colaboradores dessa revista, o jovem Machado de Assis ganhou destaque ao longo dos anos. Uma das discussões presentes naquelas páginas e também nos contos escritos por esse literato diz respeito ao trabalho feminino. A partir de visões diferenciadas sobre o mesmo tema, o periódico permitia que suas leitoras pudessem formar as próprias opiniões sobre essa novidade: a inserção das mulheres no mundo do trabalho
Diferenciais de preço no comércio colonial não servem como medida de margens de lucro
Tréplica ao texto: ARRUDA, José Jobson de A. Superlucros: a prova empírica do exclusivo colonial. Topoi, v. 15, n. 29, p.706-718, jul./dez 2014.
Resenhas
Legados da disciplina histórica: experiências na fronteira entre consensos e horizontes
Resenha do livro: MALERBA, Jurandir (Org.). Lições de História: o caminho da ciência no longo século XIX. Rio de Janeiro: FGV Editora; Porto Alegre: EdiPUCRS, 2010. 492p.; MALERBA, Jurandir. Lições de História: da história científica à crítica da razão metódica no limiar do século XX. Rio de Janeiro: FGV Editora, Porto Alegre: EdiPUCRS, 2013. 539p.
Campus à espreita: o pós-golpe de 1964 e o mundo acadêmico no Brasil
Resenha do livro: MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar: cultura política brasileira e modernização autoritária. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
Jacques Revel: entre a história da historiografia e a “crise” da história social
Resenha do livro: REVEL, Jacques. História e historiografia: exercícios críticos. Curitiba: Ed. UFPR, 2010.
