nº 20 / V. 11

Janeiro - Junho 2010

Artigos

É possível pensar a história em uma era pós-subjetiva?

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Por: Elías José Palti

O ensaio discute as categorias de sujeito, temporalidade e modernidade, a partir do empreendimento teórico de Koselleck, nos marcos do debate contemporâneo em torno das articulações entre filosofia, história e política. O exame das mutações conceituais experimentadas, no tempo, pela ideia de subjetividade, desde a sua origem às formulações mais recentes, propõe pensar a História, isto é, a agência humana, em uma era pós-subjetiva marcada pela ruptura de qualquer projeto de sentido.

O mundo natural e o erotismo das gentes no Brasil Colônia: a perspectiva do estrangeiro

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Por: Jean Marcel Carvalho França

O ensaio aborda a literatura de viagem sobre o Brasil, escrita ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, com o intuito de extrair daí uma pequena amostra da imagem que o europeu construiu do mundo natural e de um dos aspectos da conduta moral das gentes dos trópicos portugueses, aquele ligado à vida erótica do brasileiro, à sua relação com os prazeres da carne. Trata, pois, de uma tentativa muita limitada de mapear uma pequena parte das verdades sobre o Brasil e suas gentes que o europeu construiu e partilhou ao longo dos séculos, verdades que, em larga medida, guiaram as suas ações nesta parte do globo.

O Padre Lourenço de Mendonça: entre o Brasil e o Peru (c. 1630 – c. 1640)

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Por: Diogo Ramada Curto

O artigo tem como objetivo examinar a articulação entre indivíduo e sociedade, a partir de uma reconstituição biográfica do Padre Lourenço de Mendonça, vigário, comissário do Santo Ofício e predicador geral do arcebispado no Peru e no Brasil, na primeira metade do século XVII. A análise dos memoriais dirigidos pelo Padre Mendonça ao rei e aos seus conselhos permite perceber que seus propósitos pessoais encontravam-se subordinados a uma estratégia orientada para a conversão, missionação e estabelecimento de um poder eclesiástico na América colonial.

Tecer redes, proteger relações: portugueses e africanos na vivência do compadrio (Minas Gerais, 1720-1750)

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Por: Moacir Rodrigo de Castro Maia

Este artigo analisa as relações de compadrio tecidas em importante núcleo minerador no âmbito da América Portuguesa e levanta novas questões sobre o tema. Através da história de livres, escravos e forros procura-se entender como a sociedade colonial institucionalizou práticas ao transgredir a norma eclesiástica que proibia a participação de pais como padrinhos dos próprios filhos. Além disso, a análise aponta como os vínculos entre compadres, padrinhos e afilhados produziram várias reciprocidades e como o apadrinhamento também se refletia em legados e bens deixados por aqueles que fizeram do compadrio prática de eleição de uma povoação em processo de formação.

Deportação ou integração. Os dilemas negros de Lincoln

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Por: Vitor Izecksohn - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

O artigo discute a evolução da posição de Abraham Lincoln com respeito à emancipação nos Estados Unidos. Seu pensamento variou da perspectiva colonizadora, na qual os negros livres e os libertos seriam deportados do território norteamericano, para uma posição próxima à integração, na qual os mesmos seriam assimilados com direitos restritos, na sequência à abolição. Três elementos importantes nessa transição foram: as origens políticas de Lincoln no partido Whig. O debate sobre o "solo livre" e a política presidencial durante a Guerra Civil. Nas páginas que se seguem farei uma revisão das principais posições apresentadas pelo debate historiográfico a respeito da influência desses fatores sobre o 16º presidente norte-americano.

José Majojo e Francisco Moçambique, marinheiros das rotas atlânticas: notas sobre a reconstituição de trajetórias da era da abolição

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Por: Beatriz Gallotti Mamigonian

Este artigo pretende-se um exercício de reconstituição de trajetórias de vida da era da abolição, a partir dos casos dos africanos José Majojo e Francisco Moçambique, marinheiros escravos do navio Dois de Fevereiro na rota Rio de Janeiro-Benguela, que foram emancipados e enviados para Trinidad depois que o navio foi apreendido pela Marinha Real britânica em 1841. Além de discutir a documentação gerada pela campanha de repressão ao tráfico de escravos empreendida pela Grã-Bretanha e outras fontes pertinentes, o artigo situa os dois personagens nos contextos conhecidos da história do Atlântico na era da abolição e propõe contextos novos, que, por sua vez, são iluminados pelas trajetórias desses africanos.

O “crioulo Dudu”: participação política e identidade negra nas histórias de um músico cantor (1890-1920)

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Por: Martha Abreu - UFF - Universidade Federal Fluminense

A partir da trajetória, das composições e do repertório musical de Eduardo Sebastião das Neves, conhecido como o "Crioulo Dudu", pretendo discutir as possibilidades de expressão política de um músico negro na Primeira República. Levando em consideração os debates em torno do Atlântico Negro, o crescimento do mercado editorial e da indústria fonográfica, foi possível situar Eduardo das Neves como um produtor atuante do campo musical popular que se construía entre o final do século XIX e início do XX. Dudu conferiu ao mundo musical dimensões políticas especiais, ao criar e divulgar canções que valorizavam o patriotismo e discutiam, de uma forma irônica e irreverente, as relações raciais e a identidade do homem negro no pós-abolição. O exame da trajetória e da obra musical de Dudu permite repensar antigas concepções sobre participação política e identidade negra na Primeira República.

Da tutela ao contrato: “homens de cor” brasileiros e o movimento operário carioca no pós-abolição

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Por: Maria Cecília Velasco e Cruz

Este artigo tem como objetivo demonstrar por que, para se compreender a participação dos libertos e seus descendentes na formação do movimento operário da Primeira República, é preciso ir além dos estudos que privilegiam o agir humano (agency) e as experiências individuais, sem buscar inseri-las em análises estruturais do mercado de trabalho, das relações de produção e dos processos de trabalho. Para tanto, constrói-se o argumento a partir de uma análise substantiva, cujos fios condutores são a elucidação de "termos de época" e a discussão dos significados do conceito de liberdade implícitos nas falas dos patrões e operários em momentos de conflito aberto.

As armadilhas da memória: história e mito em Emir Rodríguez Monegal

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Por: Pablo Rocca

Um homem jovem, de uma família da classe média, converte-se em intelectual. Esse homem ocupa um espaço central na cultura literária do seu país (Uruguai) e, aos poucos, na América Latina. Mas, ele carrega consigo um drama pessoal, uma marca de origem, que sempre procura encobrir e que, no entanto, sua própria escrita acaba por desvendar. Este artigo explora a(s) história(s) e os caminhos de Emir Rodríguez Monegal (1921-1985), um dos principais especialistas em literatura latino-americana no século XX. Em especial, Monegal foi um leitor privilegiado, desde os anos 1940, da obra de Jorge Luis Borges, cuja escrita foi fundamental, também, para que o crítico pudesse compreender-se a si mesmo.

Ortodoxia e coerência de um general (bom) de briga(da)

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Por: Paulo Ribeiro da Cunha

O presente ensaio tem por objetivo examinar alguns aspectos da obra e da trajetória política de Nelson Werneck Sodré que, paralelamente à vocação intelectual, cumpriu longa carreira no exército chegando ao posto de General de Brigada. Autor de vasta obra sobre o Brasil, seu pensamento foi frequentemente associado à linha política do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Contudo, a interpretação que desenvolvo aqui é a de que suas teses foram elaboradas com base no movimento tenentista e no diálogo com teóricos marxistas, cujo eixo de análise constituía-se na questão nacional e não no internacionalismo vigente na Terceira Internacional. Sodré foi, também, um militante da Esquerda Militar, intervindo politicamente nas Forças Armadas e atuando decisivamente na defesa da legalidade democrática nas décadas de 1950 e 1960.

Cristãos-novos, marranos e judeus no espelho da Inquisição

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Por: Robert Rowland - ISCTE - University Institute of Lisbon (ISCTE-IUL)

Tradução de Robert Rowland. Revisão técnica: Maria Aparecida Rezende Mota. ROWLAND, Robert. "Être juif au Portugal au temps de l’Inquisition: nouveaux chrétiens, marranes, juifs”, Ethnologie française, XXIX/2, 1999, p. 191-203. ROWLAND, Robert. “New Christian, Marrano, Jew”, em Bernardini e Fiering, 2001, p. 125-148. No mundo ibérico dos séculos XVI, XVII e XVIII todos os judeus remanescentes eram necessariamente clandestinos, o que implicava a necessidade de dissimular suas práticas e seus sentimentos religiosos. Na medida em que aquilo que sabemos a seu respeito resume-se, quase exclusivamente, às informações produzidas pela Inquisição, podemos ter a certeza de que nem todas tinham uma base factual. Não dispomos, entretanto, de critérios claros e objetivos que permitam determinar quais confissões e acusações eram verdadeiras. Portanto, como veremos neste ensaio, entender por que determinado indivíduo era considerado judeu passa por um exame contextual mais aprofundado da situação dos cristãos-novos na sociedade ibérica, do papel da Inquisição em diferentes lugares e épocas, e, por fim, das circunstâncias específicas de cada acusação individual.

Resenhas

Memórias sem segredo

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Por: Francisca Nogueira de Azevedo

Resenha do livro: PRESAS, José. Memórias secretas da Princesa do Brasil: as quatro coroas de Carlota Joaquina. São Paulo: Phoebus, 2008.

Um olhar sobre o catolicismo brasileiro

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Por: Sandro Ramon Ferreira da Silva

Resenha do livro: SERBIN, Kenneth P. Padres, celibato e conflito social: uma história da Igreja Católica no Brasil. Tradução Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Do mito ao enigma: a história da arte como iconologia

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Por: Naiara dos Santos Damas Ribeiro

Resenha do livro: PANOFSKY, Erwin e Dora. A Caixa de Pandora: as transformações de um símbolo mítico. Tradução Vera Maria Pereira. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Entrevistas

Entrevista com Frank Lestringant

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Por: Andrea Daher - UFRJ

Revisão técnica e edição: Andrea Daher Tradução: Aldilene Marinho Cesar Em 27 de março de 2009, Frank Lestringant, professor da Universidade Paris IV-Sorbonne e especialista em literatura francesa, esteve no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, a convite do Programa de Pós-Graduação em Historia Social da UFRJ (PPGHIS). Na ocasião concedeu a seguinte entrevista.