nº 16 / V. 9
Janeiro - Junho 2008
Artigos
Visões de identidade de escritores judeus: O Eu e o Outro
Este estudo trata do desafio que diversos autores brasileiros de ascendência judaica enfrentam ao negarem uma afirmação absolutista de expressão étnica ou identitária que emerge hoje em dia nas discussões sobre pluralidade, multiculturalismo e o que é considerado “politicamente correto.” Entre outros temas, o assunto de alteridade é especialmente referido para sublinhar como a expressão literária de autores judeus no Brasil desconstrói o flagrante emprego tradicional de “identidade.” Esta ótica se inspira muito no pequeno livro de aforismos de Leon Wieseltier, Against Identity, [Contra Identidade] e de visões articuladas por outros pensadores como Hannah Arendt, John Stuart Mill, Sigmund Freud, Zygmunt Bauman, Charles Taylor e Edward Said. Aqui a argumentação ou exposição se apropria basicamente de certas obras de ficção de Clarice Lispector e de Samuel Rawet, mas também inclui breves referências a outros escritores judeus no Brasil, como Moacyr Scliar, Cíntia Moscovich, Bernardo Ajzenberg, junto com pensamentos de artistas, scholars, pensadores, e ensaístas internacionais, judeus e não-judeus, a fim de entender principalmente como eles abordam, no seu tratamento ficcional e não-ficcional, a idéia de identidade, pertencimento e alteridade, seja ela étnica, grupal ou individual.
Os olhos do regime militar brasileiro nos campi. As assessorias de segurança e informações das universidades
O artigo analisa um dos aspectos da ação repressiva do regime militar brasileiro nas Universidades, o funcionamento das Assessorias Especiais de Segurança e Informações – AESI. Com base em documentação inédita o texto coloca em foco a ação de tais agências, que funcionaram como braço avançado da comunidade de informações nos campi. As AESI exerceram tarefas de vigilância, censura, contrapropaganda e triagem ideológica dos membros da comunidade universitária, o que implicou, às vezes, a demissão de professores e a expulsão de estudantes.
Escrita da história e representação: sobre o papel da imaginação do sujeito na operação historiográfica
Este artigo discute o problema da representação histórica, com ênfase no papel desempenhado pela imaginação do sujeito na construção do objeto e do texto da história. Tomando como ponto de partida o conceito de representação-efeito, argumenta-se que o papel da imaginação não deve ser nem descartado, nem superestimado,como por vezes parecem sustentar os envolvidos no debate. Argumenta-se, também, que uma reconsideração do papel da imaginação permite repensar a relação entre texto histórico e seu leitor, tomado como agente ativo de leitura.
A fortaleza e o navio: espaços de reclusão na Carreira da Índia
Este artigo pretende salientar algumas relações que podem ser estabelecidas entre os dois principais veículos da expansão portuguesa: a fortaleza e o navio. Esses dois espaços de reclusão podem ser entendidos como “instituições totais”, na forma como as define Erving Goffman, e apresentam profundas semelhanças, principalmente quando se analisam momentos-limite vividos pelos indivíduos, durante os naufrágios e durante as situações de cerco. Para este efeito privilegia-se a presença portuguesa no Oceano Índico, caracterizada pela construção de uma rede de fortalezas sem uma significativa penetração no território.
Experiências da prática associativa no Brasil (1860-1880)
A presente pesquisa reúne algumas reflexões acerca da prática da filantropia e do mutualismo no Brasil, a partir da análise de estatutos e atas de fundação de algumas associações de ajuda mútua do Rio de Janeiro, entre os anos de 1860 e 1889. A partir da análise dessas fontes, pretende-se entender como tais associações se estruturavam; como elas se viam e viam a sociedade na qual se encontravam inseridas; como se processavam as relações entre as associações e o Estado Imperial e entre elas e as outras associações civis existentes; entender as motivações que levavam as pessoas à prática da ajuda mútua; perceber os valores, rituais e crenças que eram compartilhados pelos seus membros; e, por fim, dimensionar o impacto deste processo associativista sobre a cultura cívica em vigor.
Para perto futuro prometeu muita coisa republicana: a travessia da cultura política brasileira em Grande Sertão: Veredas
O artigo identifica algumas tensões e ambigüidades presentes na narrativa de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Analisa o processo de inserção do protagonista Riobaldo Tatarana no mundo de jagunços sertanejos, verificando como o personagem corporifica alguns dilemas cruciais da constituição de uma cultura política republicana no Brasil, especialmente quanto às contradições do papel da escola na formação de uma comunidade cívica brasileira de memória e tradições. Mais, esse artigo postula que Riobaldo Tatarana encarna na narrativa um dos maiores conflitos na constituição de uma cultura política republicana brasileira durante o século XX, aquele do relacionamento entre cultura letrada e o analfabetismo.
Pontes de Tábuas: uma fazenda desgovernada em 1850
O artigo analisa os arquivos de uma ação penal que foi realizado na vila de Nova Friburgo, província do Rio de Janeiro, em 1850. Os réus eram escravos na fazenda que pertencia ao Comendador Boaventura Ferreira Maciel, a Fazenda Ponte das Tábuas. Eles foram acusados de matar o ferreiro da fazenda, em uma noite escura e chuvosa, no dia 13 de fevereiro, do mesmo ano. Nos arquivos, há depoimentos interessantes quanto à vida dos escravos no Sudeste do Brasil em meados do século 19.
'Shakespeare': um nome para textos
Neste artigo, demonstro a importância histórica de se entender o caráter contingente da associação editorial do nome ‘Shakespeare’ às peças que o monumentalizaram a partir do fólio de 1623. Trata-se de uma forma deliberada de romper com o cânone autoral romântico, quando muitas peças associadas ao seu nome começaram a ser lidas pelo movimento Sturm und Drang como exemplos excelentes de oposição estética e temática ao paradigma clássico francês. Deste modo, alguns enunciados ou apelativos de valor nos frontispícios das peças impressas e associadas ao nome ‘Shakespeare’ entre 1594 e 1637 deixarão de ser entendidos como se fossem regidos pela preocupação de preservação de uma integridade intelectual-textual individualizada de Shakespeare.
O resgate do que se desmancha: a cartografia da pacificação da Balaiada
O objetivo desse artigo é descrever como se deu o processo de pacificação da Balaiada e, nesse sentido, mostrar como o discurso da ordem inscreveu-se no território do Maranhão. O conceito de território agrega processos próprios do campo da política. Ele envolve a relação de uma sociedade com um espaço determinado. Daí a idéia de cartografia da pacificação. Ao enviar tropas para o Maranhão, o governo criou redes de dominação e circuitos de exploração que garantiram a submissão desse território ao Império do Brasil.
Resenhas
O anti-semitismo nas Américas de Tucci Carneiro
Resenha do livro: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (Org.). O anti-semitismo nas Américas: história e memória. São Paulo: Fapesp/EdUSP, 2007, 744 páginas.
