nº 15 / V. 8
Julho - Dezembro 2007
Artigos
A memória, o historiador e o cidadão. A memória do Proceso argentino e os problemas da democracia
O objetivo aqui é examinar a versão principal do passado recente argentino – a do Nunca más – e com isso mostrar que papel ela cumpriu na construção da nova democracia, republicana e liberal, sustentando-a e ao mesmo tempo condicionando-a. Quero, também, tratar a questão dos historiadores e sua complexa, para não dizer ambígua, relação com essa memória da ditadura e da democracia, e o papel por eles exercido na consagração ou contestação das memórias coletivas construídas
Das palavras e das coisas curiosas: correspondência e escrita na coleção de notícias de Manuel Severim de Faria
Enquanto vigorou a União das Coroas Ibéricas (1580-1640) aprofundaram-se as relações de conhecimento acerca das conquistas luso-espanholas. Alguns circuitos e conexões surgiram constituídos por funcionários e clérigos letrados, tanto de enviados com o objetivo de registrar e descrever as partes do Oriente e do Ocidente como dos que ao lado de suas atividades administrativas e evangelizadoras enviavam informações e conhecimentos delas. Manuel Severim de Faria, Chantre da Sé de Évora, criou e centralizou um desses importantes circuitos, do qual fizeram parte, entre outros, o vice-rei Diogo do Couto e os freis Cristóvão de Lisboa e Vicente do Salvador. Outros, menos conhecidos, relatavam em cartas as notícias com grande rapidez, como as da guerra contra os holandeses na Bahia em 1624-25.
A escrita dos guaranis nas reduções: usos e funções das formas textuais indígenas – século XVIII
O uso da escrita por parte dos guaranis foi intenso a partir da celebração do Tratado de Madri, em 1750. Diante da permuta de territórios sul-americanos, por parte das monarquias ibéricas, os indígenas alfabetizados das reduções destinaram à prática da escrita novas finalidades. Nessa ocasião, os contatos epistolares foram muito valorizados pelos guaranis. A decisão indígena de manifestar por escrito suas opiniões expressa por um lado a importância conferida às negociações in scriptis e, por outro, o conhecimento das práticas administrativas vigentes no Império espanhol. No século XVIII, os guaranis letrados escreveram com freqüência e, por vezes, com maior desenvoltura do que os colonizadores hispano-americanos.
Ilustração, experimentalismo e mecanicismo: aspectos das transformações do saber médico em Portugal no século XVIII
Nas últimas décadas, um dos temas da historiografia luso-brasileira tem sido o das relações entre a medicina e a cultura científica no século XVIII. Parte de uma pesquisa mais ampla sobre o tema, este artigo apresenta algumas considerações acerca da influência do experimentalismo e do mecanicismo no saber médico do período. Nesse sentido, propomos analisar a crítica dos “estrangeirados” à tradição galênica, o papel da reforma dos Estatutos da Universidade de Coimbra, de 1772, e a influência do mecanicismo na anatomia. O objetivo principal é o de contribuir para a compreensão das transformações do saber médico no contexto da Ilustração em Portugal.
Dinâmica da modernidade na América Latina: sociabilidades e institucionalização
O presente trabalho pretende delinear alguns traços significativos do que se poderia compreender como modernidade na América Latina. O interesse radica em discutir como a caracterização da particular experiência histórica da modernidade latino-americana requer de uma interpretação do sentido e significado dos processos de institucionalização de sociabilidades, disciplinamento e uniformidade cultural. Uma análise da modernidade na América Latina sugere destacar aqueles dispositivos normativos que fazem referência à formalização e institucionalização de experiências sociais. Assim, pretende-se argumentar que as múltiplas práticas modernizadoras parecem ter apresentado uma ambígua lógica institucionalizadora: caracterizam-se por seus marcados signos de fragilidade e ausência em determinadas esferas da vida social, ao mesmo tempo em que denotam uma forte presença homogeneizadora e disciplinar, materializadas em uma instituição, o Estado, que conseguiu se situar acima das demais.
O rei da América: notas sobre a aclamação tardia de d. João VI no Brasil
O texto apresenta algumas possibilidades analíticas para a decisão tardia de aclamar d. João VI no Brasil, tendo o rei assumido o título monárquico desde a morte de sua mãe, d. Maria I, em 20 de março de 1816. A decisão pela aclamação e a forma grandiosa da cerimônia, quase dois anos depois, deve ser analisada à luz da mudança do contexto europeu após a derrota de Napoleão, da restauração das forças monárquicas impressas nos tratados do Congresso de Viena, e, no Brasil, considerando os novos perfis dos ministros de d. João nos últimos anos de sua permanência na América.
Varnhagen em movimento: breve antologia de uma existência
O objetivo deste artigo é o de esboçar uma breve antologia da vida e obra do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), cuja existência transcorre praticamente toda fora do Brasil. Procuro relacionar parte da sua imensa obra a esse olhar distanciado, efeito de seu movimento quase ininterrupto em busca de arquivos e documentos sobre a história e a geografia do Brasil que se encontravam no exterior. Além disso, tento enfatizar a importância da viagem e da visão in locu como recursos cognitivos para a escrita da história em um contexto marcado pela emergência da história como ciência e sua ambição à objetividade narrativa e à imparcialidade do historiador.
Resenhas
Tradição crítica e crítica da tradição: as fortunas da ars historica
Resenha do livro: GRAFTON, Anthony. What was History? The Art of History in Early Modern Europe . Cambridge : Cambridge University Press, 2007.
