V. 26
2025
Dossiê: Conexões e redes da Fundação Rockefeller na América Latina
Artigos
Como identificar um comunista? Programas de educação médica e a Fundação Rockefeller no Brasil da Guerra Fria
Este artigo aborda a contenção do comunismo como elemento central em programas da Fundação Rockefeller que visavam à modernização da educação médica no Brasil na década de 1950, a partir de parceria com a Capes. As fontes de pesquisa são os diários e a correspondência de Robert Briggs Watson, responsável no Brasil por esses programas entre 1954 e 1962. No escritório da Fundação Rockefeller, no Rio de Janeiro, programas foram formulados e supervisionados, e atividades políticas de candidatos a bolsas e auxílios foram investigadas a partir de uma rede de indivíduos e instituições. O artigo sublinha que a Guerra Fria se manifestou localmente por meio desses programas e discute o protagonismo da Rockefeller como ator político no Brasil, bem como o papel de indivíduos em processos institucionais e políticos mais amplos.
Uma viagem controversa: Maurício Oscar da Rocha e Silva e a Travel Grant da Fundação Rockefeller (1958-1959)
Este artigo examina as atividades de Maurício Oscar da Rocha e Silva, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, no período em que foi bolsista da Fundação Rockefeller, de 1958 a 1959. Para tanto, foram consultadas correspondências e relatórios disponíveis no Rockefeller Archive Center e no Centro de Memória da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Partindo dos apontamentos teórico-metodológicos de Bruno Latour e Kapil Raj, investigam-se as negociações, controvérsias e assimetrias que possibilitaram a Rocha e Silva viajar a 13 países, situados na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. A partir de um plano de trabalho que não era estritamente compatível nem com os planos iniciais do pesquisador nem com a proposta da Rockefeller, veremos como Rocha e Silva mesclou diferentes estilos de pesquisa e ensino médico em sua viagem e, também, em seu laboratório, situado no interior paulista.
A construção de redes científicas internacionais: a Fundação Rockefeller e a formação de pesquisadores brasileiros no século XX
O artigo examina a influência da Fundação Rockefeller na medicina e na saúde pública brasileiras no início do século XX, investigando o impacto de suas bolsas de estudo para as iniciativas de fortalecimento de redes acadêmicas internacionais e para a formação de pesquisadores. O estudo analisa grupo de médicos e enfermeiras contemplados com bolsas entre 1917 e 1950, com ênfase especial no período que vai até a década de 1930, tendo em vista o início da vinculação de bolsistas de instituições do eixo Rio de Janeiro–São Paulo. Foram compilados dados do Directory of Fellowship Awards for the Years 1917-1950, publicado em 1951, e do The Johns Hopkins University Circular. School of Hygiene and Public Health, Catalogue and Announcement, publicados de 1916 a 1931, analisados a partir da articulação entre associações coletivas e competências específicas. Conclui-se que as redes formadas se deram a partir de características específicas para a circulação de cientistas brasileiros de destaque.
Interações científicas internacionais: a Fundação Rockefeller e o financiamento para o Instituto Biológico da Bahia (1953-1955)
Este artigo analisa interações científicas entre o Brasil e os Estados Unidos a partir do financiamento da Divisão de Ciências Naturais e Agricultura da Fundação Rockefeller ao Instituto Biológico da Bahia, com o protagonismo do médico-veterinário Fúlvio Alice, entre 1953 e 1955. Seu objetivo é fornecer uma contribuição para o aprofundamento do estudo sobre o papel estratégico dos intermediários locais na dinâmica de circulação do conhecimento científico internacional, especialmente quando mediada por uma agência filantrópica norte-americana. Utilizam-se como fontes materiais coletados no Rockefeller Archive Center e jornais disponíveis na Hemeroteca Digital Brasileira. A análise dos documentos parte da relação entre documento/monumento, proposta por Jacques Le Goff, segundo a qual as fontes são portadoras dos interesses de seus autores.
Conexões e redes da Fundação Rockefeller na América Latina: trajetórias e possibilidades
O artigo analisa o campo de estudos históricos da Fundação Rockefeller na América Latina e introduz o dossiê “Conexões e redes da Fundação Rockefeller na América Latina”, publicado pela Topoi. Revista de História. A partir de estudo bibliográfico, discute-se a recente virada da historiografia para a utilização de abordagens internacionalizantes, a exemplo da História Global; reflete-se sobre a recepção desse movimento na História das Ciências e da Saúde e possíveis similaridades com a História da Saúde Global; discute-se as diferentes perspectivas historiográficas sobre a Fundação Rockefeller, seus desdobramentos na América Latina e perspectivas futuras para investigação, e apresentam-se os artigos que compõem o dossiê.
“Those Promising Young Men and Women Upon Whom Will Fall the Scientific Leadership of the Future”: Building a Database for the International Fellows and Scholars of the Rockefeller Foundation Training Programs (1917-1970)
This paper discusses the characteristics and potential of RF-DirectoryDB, a database created to support prosopographical studies. The database is populated with information from the Directory of Fellowships and Scholarships (1917-1970), a Rockefeller Foundation publication that compiled data on the academic training and careers of 9,057 scholarship recipients from various countries and fields of knowledge. The article begins with an overview of the Rockefeller Foundation scholarship programs, relevant historiographical discussion, and a description of the source material, the Directory. Next, it addresses the technical challenges involved in constructing the database and the resulting limitations. Finally, the text demonstrates the database’s application with a preliminary analysis of a group of Latin American fellows specializing in agricultural research.
Activismo científico, filantropía y migraciones forzadas: la Fundación Rockefeller y la renovación del Instituto de Anatomía General y Embriología de la Universidad de Buenos Aires, 1939-1946
Este artículo estudia el proceso de renovación del Instituto de Anatomía General y Embriología (IAGyE) de la Facultad de Ciencias Médicas de la Universidad de Buenos Aires, entre fines de la década de 1930 y mediados de la década de 1940. El trabajo se concentra en la creación de condiciones propicias para el desarrollo de actividades científicas en Argentina y su cristalización en prácticas científicas articuladas con especialidades científicas de referencia. Se considera especialmente el papel de la Fundación Rockefeller y su articulación con los proyectos institucionales del fisiólogo argentino Bernardo Houssay. Asimismo, el artículo atiende a las condiciones que clausuraron este proceso de renovación y evalúa algunos efectos de largo plazo que tuvo esta experiencia. Con este fin, como fuentes documentales se utilizan principalmente intercambios epistolares entre científicos y funcionarios de la Fundación Rockefeller, disponibles en la Casa Museo Bernardo Houssay, y documentos elaborados por funcionarios de la Fundación Rockefeller, disponibles en Rockefeller Archives Center.
Diplomacia científica y neomalthusianismo: el rol de la Fundación Rockefeller en los inicios de la planificación familiar chilena
Este artículo analiza la intersección entre diplomacia científica y neomalthusianismo durante la Guerra Fría, con énfasis en Chile en la década de 1960. Se argumenta que la diplomacia científica, al emplear la ciencia y la tecnología con fines de política exterior, facilitó la transferencia de conocimientos médicos y demográficos, consolidándose como un mecanismo de poder blando. Instituciones filantrópicas como la Fundación Rockefeller impulsaron programas de planificación familiar en países en desarrollo, articulando redes académicas, estatales y científicas para frenar el crecimiento poblacional. La visita de John D. Rockefeller III en 1966 evidenció el respaldo a estas iniciativas, mientras que la creación de organismos locales institucionalizó la planificación familiar dentro de las políticas de salud pública chilenas.
Ecologia de aves, armas biológicas? O Projeto Ecológico de Belém e uma controvérsia histórica sobre a presença do Instituto Smithsonian e da Fundação Rockefeller na Amazônia (1963-1971)
Este artigo investiga a história do Projeto Ecológico de Belém (1963-1971), coordenado por Philip Humphrey, do Instituto Smithsonian, e desenvolvido na Amazônia em parceria com o Laboratório de Vírus da Fundação Rockefeller. O objetivo é explorar a controvérsia histórica de que pesquisas sobre ecologia de aves teriam ocultado testes das forças armadas norte-americanas para o desenvolvimento de armas biológicas durante a Guerra do Vietnã. A pesquisa põe em relevo a articulação entre as instituições do Estado e as fundações privadas na execução da política externa norte-americana na Guerra Fria. Baseado em documentação consultada em arquivos no Brasil e nos Estados Unidos, o artigo conclui pela existência de financiamento híbrido - privado e público, civil e militar - ao projeto e pelo repasse de informações produzidas a partir das pesquisas para as forças armadas norte-americanas.
Transnational History, Cultural Collisions, and Agency: Rockefeller Public Health Fellowships in Latin America, 1917-1940
The Rockefeller Foundation and its subsidiary, the International Health Board, created a fellowship program that intended to provide education and training for public health students and officials across the world. This essay focuses on Latin American fellowships in the early twentieth century, considering the goals of the Foundation’s program, the agency of the fellows, and the program’s global impact. It draws on fellowship cards and annual reports from the Rockefeller Foundation, and analyzes them through transnational studies, which prioritizes relationships established between agents from different countries. The text concludes that the relationship between Rockefeller agents and local men was not without tension and that the international agency contributed significantly to the training of technical staff.
Una profesión al estilo norteamericano: la reconfiguración de la enfermería en Ecuador (1941-1965)
El artículo explora los cambios del campo del cuidado, específicamente la enfermería, en Ecuador entre 1941 y 1965, a través del estudio de caso de la Escuela Nacional de Enfermeras. Desde este se analizan procesos como la norteamericanización y profesionalización del campo del cuidado, que fue fortalecido como femenino. La cooperación de la Fundación Rockefeller y la Oficina Sanitaria Panamericana con instituciones ecuatorianas permitió la instauración del modelo Nightingale en ese país. Desde una historia política se indaga en la acción de las enfermeras y cómo, lejos de ser simples receptoras de los proyectos nacionales e internacionales, fueron agentes de la reconfiguración de la enfermería. Para esto se explora la construcción de espacios, la configuración de jerarquías y el desarrollo de narrativas históricas. Los cambios realizados en el período estudiado dieron forma a la enfermería que hoy conocemos.
