nº 9 / V. 5
July - December 2004
Articles
Sujeitos sem história, prática calada e marcas apagadas: a sodomia imperfeita ante o Santo Ofício do México
Entre 1576 e 1662, a Inquisição mexicana recebeu apenas quatro acusações contra sodomitas imperfeitos (homens que praticavam sexo anal com mulheres). Como a Inquisição espanhola não considerava tal prática crime contra a fé, com exceção no tribunal de Aragão, restavam apenas testemunhos coletados pelos comissários da inquisição, e o julgamento não teve prosseguimento. Por meio destes poucos testemunhos, tenta-se mostrar como práticas íntimas tornaram-se, por diversos meios, públicas e como as ideias de sexualidade permitida e proibida encontravam-se em permanente tensão sob o sacramento do matrimônio, e como os mecanismos de controle social eram moralizados através da verbalização do inominável e do nefando.
África no Brasil: mapa de uma área em expansão
Este artigo traça os contornos de uma nova área da historiografia brasileira, dedicada ao estudo da diáspora africana no Brasil. Nascida nos debates e pesquisas sobre o tráfico de escravos e a escravidão, a área hoje guarda suas próprias questões teórico-metodológicas, na busca dos historiadores por apreender a experiência própria dos africanos através do Atlântico e na sociedade escravista brasileira. O artigo discute as soluções dadas pelos historiadores para o desafio de definir a identidade africana no Brasil e apresenta algumas publicações recentes sobre os temas de trabalho, práticas culturais, resistência, religião e trajetórias individuais na diáspora.
Guerra e sociedade: a situação militar do Rio de Janeiro no Vice-Reinado do Conde da Cunha, 1763-1767
O presente artigo tem por objetivo o estudo da situação militar da capital do Estado do Brasil, o Rio de Janeiro, durante a segunda metade do século XVIII. Ater-nos-emos mais especificamente ao período do governo do Vice Rei Conde da Cunha (1763-1767), quando se iniciava o estabelecimento das novas diretrizes da Coroa portuguesa referentes à militarização da população colonial. Tais diretrizes, por suas intensas consequências sociais, acabaram por tornar esse período especialmente interessante devido ao impacto que produziu na sociedade.
Peregrinação e alegoria: uma leitura do Compêndio Narrativo do Peregrino da América
A obra de Nuno Marques Pereira, Compêndio narrativo do peregrino da América, publicada em 1728, pertence ao vasto repertório da literatura de cunho moralizante produzida entre os séculos XVI e XVIII. Trata-se da narrativa de viagem que um suposto "peregrino" faz da Baía de Todos os Santos à Capitania das Minas, na qual discorre sobre os costumes religiosos no Brasil e aborda temas diversos, analisados à luz de uma teologia moral. Este artigo propõe analisar como Nuno Marques Pereira articula elementos discursivos disponíveis na tradição, como é o caso da alegoria e do diálogo, e o exame dos costumes e das práticas religiosas que observa na sociedade da América Portuguesa no século XVIII, que atuam como elementos decisivos na construção do texto.
Fazendas de gado no Paraná escravista
A pecuária foi uma atividade econômica de importância central na formação dos mercados internos coloniais brasileiros. As fazendas cresceram e se fortaleceram na retaguarda dos setores de exportação. O presente artigo analisa as fazendas de gado existentes no Paraná em 1825, discutindo o emprego da mão-de-obra escrava, familiar e livre, bem como a composição dos rebanhos e a produção de alimentos no seu interior. Os fazendeiros aparecem, nessa conjuntura, como a classe mais poderosa e a principal detentora de terras e escravos.
Espetáculos da diferença: a Exposição Antropológica Brasileira de 1882
A Exposição Antropológica Brasileira, celebrada em 1882 no Museu Nacional do Rio de Janeiro, é analizada aqui como um intento monumental e espetacular de revalorizar a iconografia indianista do Império que na época parecia ter-se tornado redundante. A evidência material da "realidade" indígena exigia uma reavaliação da utilidade do índio como representante da nação moderna: da mesma forma em que o discurso indianista não pode estar reduzido a um parâmetro ideológico singular e univocal, porém, a reinscrição científica da vida e da cultura nativa parecia expressar mensagens contraditórias, mensagens estas que, disseminadas no nível da esfera pública pela Exposição Antropológica, vieram a se tornar ainda mais diversificadas e complexas. O espetáculo da ciência que dizia substituir os mitos literários ou artísticos sobre o índio, não obstante retomava as dicotomias tradicionais entre bons e maus selvagens, tupis e tapuias, passado e presente. No presente artigo se tentará traçar o percurso deste campo científico emergente, primeiramente contrapondo os novos discursos sobre "raça" e civilização pré-colombiana presentes na tradição indianista, para oferecer logo uma observação mais atenta sobre o modo em que essas diferentes instâncias operavam no nível de ordem dos objetos expostos. A partir daí será discutida a proliferação das representações visuais de objetos, homens e mulheres indígenas presentes na exposição em pintura, escultura, fotografia e caricatura.
Gente do samba: malandragem e identidade nacional no final da Primeira República
Este artigo estuda o samba malandro no final da Primeira República, tendo por objetivo mostrar um dos caminhos através dos quais se construiu uma identidade nacional brasileira fundada em conceitos como "mestiçagem", "pureza" e "cultura popular".
Reviews
A escravidão como discurso
Resenha do livro: MARQUESE, Rafael de Bivar. Feitores do corpo, missionários da mente: senhores, letrados e o controle de escravos nas Américas, 1680-1880. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
O direito à informação: os arquivos da "guerra suja" na América Latina
Resenha do livro: CATELA, Ludmila da Silva y JELIN, Elizabeth (comps.). Los archivos de la represión: documentos, memoria y verdad. Buenos Aires: Siglo XXI, 2002. Vol. 4 – Série Memoria de la represión.
