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Na vaga do trabalho escravo: o tráfico de trabalhadores engajados de Moçambique para a Ilha Reunião no pós-abolição da escravidão colonial francesa
O artigo analisa a relação do engajamento de trabalhadores de Moçambique para a Ilha Reunião com a intensificação da demanda por mão de obra a baixo custo nas regiões tropicais do globo, no período da proibição do tráfico de escravos e da abolição da escravidão, em virtude do crescimento do comércio mundial.
Política e magia em Castela (século XIII): um fenômeno transcultural
Pensar uma história interconectada e entrelaçada pode abrir nossas perspectivas de análise e nos auxiliar no rompimento com uma escrita da história compartimentada. O presente artigo segue essa proposta de análise, pensando o fenômeno dos entrelaçamentos transculturais na corte de Afonso X de Castela (séc. XIII), através da comparação entre um tratado de filosofia e magia, o Picatrix, traduzido na corte desse monarca, e uma de suas obras normativas, o Setenario. Pretende-se analisar como diversas temporalidades se cruzam na formação de novas experiências e como essas experiências são instrumentalizadas para servirem aos interesses políticos do rei Afonso X. Propõe-se, finalmente, o conceito de vórtice histórico como ferramenta para a análise dos entrelaçamentos transculturais.
O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro como receptáculo do presente (1838-1850)
Este artigo investiga, através das produções do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro entre 1838 e 1850, sobretudo o seu periódico, os limites para a escrita da história do presente no século XIX. Os sócios, imbuídos de um discurso que, por vezes, legitimava essa prática por considerá-la pertinente em uma associação próxima ao imperador D. Pedro II, em geral, a desqualifi cavam em prol de uma concepção moderna de história na qual o afastamento temporal, combinado à imparcialidade, era condição fundamental para se chegar à verdade dos fatos, e a contingências políticas do próprio tempo. Daí se entende o caráter arquivista da instituição em relação aos documentos referentes aos fatos coetâneos e projetos como o da “arca do sigilo” para recolha e proteção dos mesmos.
A política como “arte de matar a vergonha”: o desembarque de Sirinhaém em 1855 e os últimos anos do tráfico para o Brasil
Em 1855, um navio negreiro desembarcou em Pernambuco. A maioria dos cativos foi apreendida, mas uns 50 desapareceram entre os engenhos próximos, bem como a tripulação, após o capitão conversar com um delegado e senhor de engenho, elogiado pelo cônsul inglês e por uma liderança liberal pela maneira generosa como administrava seus cativos. Também foram indiciados outros proprietários vinculados ao presidente da província e aos senadores Cavalcanti, gerando protestos ingleses e um escândalo político e diplomático que alcançou o parlamento e o gabinete da conciliação, cujo ministro da justiça, Nabuco de Araújo, havia iniciado sua carreira em Pernambuco, à sombra dos Cavalcanti. O caso revela detalhes das resilientes malhas do tráfi co na política imperial.
A “foice de dez réis” e a “febre dos seguros”: protesto social e o risco político como negócio em Portugal (1910-1926)
O aumento da violência política após a implantação da República em outubro de 1910 e a incapacidade do Estado em manter a ordem encontraram na indústria seguradora uma nova forma de proteção contra o risco de destruição e perda de propriedade. O seguro contra greves e tumultos articulou uma indústria em expansão com um crescente sentimento de insegurança por parte da burguesia. Através da análise de imprensa nacional e internacional, relatórios policiais e correspondência de seguradoras, este artigo analisa a introdução, a difusão e o declínio do seguro contra greves e tumultos em Portugal.
“A necessidade carece de ley”: valorização da mão de obra indígena e africana no Grão-Pará (1748-1778)
Dialogando com o contexto de alta mortalidade indígena gerada por uma epidemia, e o esforço da administração de D. José I em inserir regularmente cativos africanos no Grão-Pará, o artigo analisa tensões entre dois projetos relacionados ao uso da mão de obra na capitania. De um lado, estava a intensifi cação da escravidão indígena e seu uso como principal força de trabalho na região. Do outro, a tentativa de incorporação regular do cativo africano na base da economia local. A análise se apoia no escrutínio de episódios pontuais: a publicação de uma Bula papal, a dissimulação do governador do Maranhão e a resistência à utilização do trabalho africano.
“Dos rigores do cativeiro ao cárcere de uma penitenciária”: libertos em Sergipe no pós-abolição
O artigo aborda o mundo dos libertos em Sergipe no século XIX, especialmente analisa a atitude de “ex-escravos” prisioneiros que entraram com ação na justiça para tentar conquistar a liberdade depois da Abolição, que pôs fim à escravidão no Brasil, em 1888. A ideia central é mostrar como os “ex-escravos” – esses sujeitos subestimados por décadas pela historiografia – buscaram capitalizar os novos direitos que a legislação lhes facultava. Ao agenciarem as barras dos tribunais, eles se apropriavam de prerrogativas republicanas, inserindo seus interesses em uma emergente linguagem da cidadania.
“Um resumo do Brasil”: diferença e historicidade na construção do rural no Paraná
O presente artigo aborda discursos sobre o rural no estado do Paraná, em meados do século XX. Serão analisados os principais eixos performativos dos discursos sobre as gentes e as terras desse estado, elaborados em artigos, ensaios e discursos de Bento Munhoz da Rocha Neto, entre 1951 e 1955, quando governou o estado, bem como na obra Dois repórteres no Paraná, publicada sob os auspícios de seu governo, em 1953. O foco é problematizar as subjetivações organizadas por tal discursividade, as quais criaram e (des)qualificaram personagens, articulando-os aos condicionantes externos – meio, clima, heranças culturais, psicologia – de forma a limitar a ação desses sujeitos e capacitá-los, ou não, em um processo de construção da noção de propriedade e proprietários naquele estado. Tais eixos narrativos serão compreendidos como acontecimentos discursivos que se articulam dentro de narrativas historicizadas, ou seja, narrativas que compõem regimes de historicidades. O objetivo principal é conhecer como os projetos de (re)ocupação de grandes áreas do território paranaense estavam ligados a um projeto de futuro nacional e à construção de um Brasil diferente.
Diadorim, Hermógenes e os antigos: homens da raça de ferro no sertão
O presente artigo aborda o diálogo que a obra de João Guimarães Rosa estabelece entre seus jagunços e a tradição grega. Para tanto, este texto busca discutir de que maneira a caracterização de alguns dos guerreiros do sertão, especialmente Hermógenes e Diadorim, pode não somente nos fazer encontrar Homero no sertão, como atualizar nesse mesmo ambiente a Linhagem de Ferro de Trabalhos e dias de Hesíodo, explorando a maneira como a tradição se mantém viva. Faz-se, para tanto, uma análise textual desses personagens em Grande sertão: veredas (1956) bem como dos homens da raça de ferro na poesia hesiódica.
Entre a benção e a maldição: (re)ações do catolicismo à modernização e modernidade europeia no século XIX
A relação entre religião e modernidade tem sido já há algum tempo um alvo constante de reflexões e debates. De modo geral, foi comum ao longo do século XIX a associação da religião católica àquilo que representava um passado a ser superado, de superstições e crenças em um mundo encantado por intercessões e milagres. Diante disso, a ambígua relação entre o catolicismo e o processo de modernização ocidental acaba por apresentar problemáticas importantes para se compreender o modo como a modernidade se consolidou no Ocidente. Em face disso, o presente artigo tem por propósito analisar as ambíguas reações de setores da Igreja Católica europeia ao processo de modernização técnica e à consolidação da modernidade ao longo do século XIX, concentrando-nos de modo especial nos casos francês e alemão.
Ciência, poder e circulação de conhecimento no século XVIII: Ribeiro Sanches e o Brasil colonial
O médico António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1782) é amplamente conhecido pela sua participação ativa nos processos de reforma do ensino em Portugal durante o século XVIII. Suas conexões com a Coroa e sua extensa rede de contatos favoreciam que o seu pensamento circulasse entre diversos grupos de indivíduos letrados. Sua atividade intelectual foi intensa a partir da segunda metade do século XVIII, em um período marcado pelo aumento do interesse da Coroa portuguesa em conhecer as potencialidades naturais de suas colônias ultramarinas. Foram muitas as políticas voltadas para processos de reconhecimento e construção de conhecimento sobre o Mundo Natural, e estes processos, em grande medida, impulsionaram a produção científi ca do período, da qual Ribeiro Sanches não esteve alheio. Nesse sentido, o objetivo deste artigo é verifi car em que medida tais preocupações também estiveram presentes em seus escritos.
Reviews
Na trincheira das conquistas democráticas: o ensino de história como alvo de ataques e resistência ativa
Resenha do livro: MACHADO, André Roberto de Arruda; TOLEDO, Maria Rita de Almeida. Golpes na história e na escola: o Brasil e América Latina nos séculos XX e XXI. São Paulo: Cortez Editora / ANPUH-SP, 2017.
Bastidores da Conjuração Baiana de 1798
Resenha do livro: VALIM, Patrícia. Corporação dos Enteados: tensão, contestação e negociação política na Conjuração Baiana de 1798. Salvador: EDUFBA, 2018, 327p.
Interviews
Interview with Professor John Thornton
Interview with Professor John Thornton (University of Boston – USA). Interviewers: Ariane Carvalho (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ – Brazil) and Roberto Guedes (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica/RJ – Brazil. Translated by: Lise Sedrez (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ – Brasil) and Roberto Guedes (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica/RJ – Brazil.
Entrevista com John Thornton
Entrevista com o Professor John Thornton (Universidade de Boston – EUA). Entrevistadores: Ariane Carvalho (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ – Brasil) e Roberto Guedes (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica/RJ – Brasil. Tradução: Lise Sedrez (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ – Brasil) e e Roberto Guedes (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica/RJ – Brasil.
