nº 3 / V. 2

July - December 2001

Articles

A dinâmica da presença brasileira no Índico e no Oriente. Séculos XVI-XIX

By: Anthony John R. Russel-Wood

O propósito deste ensaio — que busca revisar e complementar a historiografia sobre o tema — é oferecer uma perspectiva brasileira do comércio para além do Cabo da Boa Esperança, examinar a presença brasileira no Estado da Índia e, ainda, resgatar as dinâmicas iniciativas dos comerciantes brasileiros, bem como destacar o importante papel dos portos brasileiros. Salienta a importância de Moçambique como ponto de convergência e de articulação entre o Oriente e o Ocidente, não apenas em termos comerciais mas também do ponto de vista cultural, referindo-se à contribuição brasileira aos costumes e à dieta dos habitantes da África Oriental, da Índia, da China e do Japão.

O Amazonas e o Prata na mitogeografia da América

By: Plínio Freire Gomes

Vários rios americanos intrigaram navegadores e cosmógrafos. Tal reação lança luz sobre um estrato cultural profundo ligado à simbologia dos grandes mananciais. Já na antiguidade clássica e nos primórdios do cristianismo, os rios estavam associados a um duplo significado: ora como obstáculo (limite natural de uma identidade coletiva) e ora como atalho (signo da possibilidade de romper fronteiras e permutar espaços). Preocupação constante nas estratégias européias de penetração e controle do território, o Amazonas e o Prata deram vida a um notável complexo mitológico. Suas margens serviram para ordenar uma série de referências fabulosas, tais como tribos de gigantes e pigmeus, o reino das amazonas, as montanhas resplandecentes do Parima, a província de Omagua, o El Dorado. O papel deste imaginário fluvial foi dar consistência ao desconhecido, ajudando a tornar o Novo Mundo uma realidade mais coerente e compreensível.

Definindo nação e Estado: rituais cívicos na Bahia pós-Independência (1823-1850)

By: Hendrik Kraay - University of Calgary

Através de uma análise dos ritos cívicos na Bahia após a Independência, este artigo examina a maneira pela qual o Estado e a nação foram representados e pensados tanto pela elite quanto pelo povo no espaço festivo que reunia todas as classes sociais. Desta maneira, aborda as grandes questões sociais e políticas numa época em que uma sociedade recém-saída do regime colonial tentava se representar: raça, cidadania, pertencimento à nação e lealdades locais versus lealdade nacional. O artigo sustenta que havia uma visão popular do Estado que não se enquadrava nas festas oficiais e que perpetuava uma leitura alternativa do significado da Independência. Todavia, aos poucos, as festas cívicas contribuíram para o fortalecimento de identidades brasileiras e baianas.

Luzes a quem está nas trevas: a linguagem política radical nos primórdios do Império

By: Marcello Basile

O artigo ressalta as linguagens políticas, no sentido de John Pocock e Quentin Skinner, como instrumento de análise para o estudo dos projetos políticos concorrentes no Brasil, particularmente na primeira metade do século XIX. Analisa, assim, a linguagem política radical desenvolvida em fins do Primeiro Reinado e durante o período regencial pelos chamados “liberais exaltados”, tomando como exemplo as definições doutrinárias dadas para um conjunto de cento e oito conceitos de significação política produzidos pelo principal jornal exaltado da corte do Rio de Janeiro, a Nova Luz Brasileira, publicado entre 1829 e 1831.

Sob o signo da iconologia: uma exploração do livro Saturno e a melancolia, de R. Klibansky, E. Panofsky e F. Saxl

By: Sérgio Alcides - UFMG - The Federal University of Minas Gerais

Ao ser publicado, na Inglaterra, em 1964, o livro Saturno e a melancolia perdera os referenciais históricos e culturais que marcaram sua versão embrionária, na Hamburgo da década de 1920. As turbulências do século XX levaram à obsolescência um aspecto decisivo do projeto inicial: o realce, através da obra de Albrecht Dürer, da contribuição da Alemanha ao ideal renascentista do homem superior e temperamental, numa prefiguração do conceito romântico de "gênio". Os autores, judeus assimilacionistas, começaram o trabalho quando a crise da República de Weimar coincidia com a internação num hospital psiquiátrico de seu patrono intelectual, o historiador da arte Aby Warburg. A ascensão do nazismo os dispersou e eles se afastaram cada vez mais da figura e das idéias de Warburg.

Reviews

Peculiaridades no Brasil

By: Silvia Hunold Lara

Resenha do livro: THOMPSON, E. P. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Organizado por Antônio Luigi Negro e Sérgio Silva. Campinas: Editora da Unicamp, 2001. 286 p.

Milenarismo e política

By: Renato Pinto Venâncio

Resenha do livro: ROMEIRO, Adriana. Um visionário na corte de d. João V: revolta e milenarismo nas Minas Gerais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001. 286 páginas.

A história nas histórias

By: Maria Clementina Pereira Cunha

Resenha do livro: DAVIS, Natalie Zemon. Histórias de perdão e seus narradores na França do século XVI. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 315 p.