Topoi. Revista de História
Volume 18, Número 35 | Maio - Agosto 2017




Em seu número 35 a TOPOI. Revista de História oferece a seus leitores oito artigos que recorrem a diferentes objetos e métodos de pesquisa, garantindo assim a manutenção da divulgação de trabalhos de alto nível independente de seus recortes cronológicos, geográficos ou temáticos. A marca da pluralidade e da qualidade dos textos publicados pela TOPOI também se evidencia por meio da tradução de documento árabe andaluz do século IX e de duas resenhas versando sobre livros bastante distintos.

 

Os artigos apresentados neste número podem ser articulados entre si por meio de dois eixos analíticos principais, sem que isto signifique – evidentemente – a exclusão de outros temas: os estudos de caso regionais e o lugar da biografia e/ou do pensamento de certos intelectuais nos trabalhos historiográficos.


No primeiro grupo temos o artigo de Marcelo Magalhães Godoy, Lidiany Silva Barbosa, Thiago Antônio da Silva Camini, Diego Ferreira Fonseca e Danielle Cristina Gomes Correa sobre o papel das ferrovias na organização social em Minas Gerais durante a Era Vargas. Trabalhando com um corpusdocumental expressivo, os autores definem o impacto dos transportes na sociedade mineira do período. Em seguida, Gerson Galo Ledezma Meneses busca, a partir de diferentes tipos de documentação escrita, compreender as relações entre as festividades do Centenário da Independência do Equador, em 1909, e os interesses nacionais e internacionais então atuantes naquele país. O terceiro artigo, também centrado em um estudo local, nos leva até a Alemanha e às apropriações de seu passado remoto por parte das forças políticas que lá se apresentavam no século XIX. Daniele Gallindo Gonçalves Silva e Mauricio da Cunha Albuquerque têm como objeto central os usos da Batalha de Teutoburgo (vencida pelos germanos no ano 9 de nossa era) na construção de mitologias políticas que alimentaram a unificação alemã. Por sua vez, Myrian Sepulveda Santoscentra sua atenção na Ilha Grande e suas prisões para traçar os meios pelos quais certos grupos sociais foram criminalizados pelas autoridades estabelecidas. A documentação empregada é variada (de textos normativos a testemunhos orais), tendo sido articulada pela autora por meio do termo “vagabundo”. Por fim, o último artigo a ter o estudo local como cerne de sua reflexão é o de Alírio Cardoso. É nesse sentido que o autor, a partir da documentação neerlandesa, analisa a inserção do Maranhão, do Grão-Pará e do Cabo do Norte na guerra de Flandres na primeira metade do século XVII.


Três outros artigos completam este número da TOPOI. Diferentemente dos anteriores, estes colocam em primeira linha o trabalho do historiador com biografias e/ou com o pensamento de certos intelectuais. O primeiro deles, escrito por Victor de Oliveira Pinto Coelho, busca explorar a obra de Ernst Jünger (1895-1998) por meio da noção de “técnica” e sua relação como o pensamento político do entreguerras. O leitor encontrará ali uma boa reflexão sobre individualidade, modernismo reacionário e romantismo. Em seguida, Begonha Bediaganos apresenta um estudo sobre Luís Pedreira do Couto Ferraz, o visconde do Bom Retiro (1818-1886). Nele encontramos, ao mesmo tempo, um estudo da trajetória deste personagem, bem como as razões de sua atuação discreta ao longo do Segundo Reinado. Por fim, o texto de Maria da Glória de Oliveira enfrenta a questão da narrativa biográfica, muitas vezes de grande importância para os trabalhos dos historiadores, a partir de uma crítica balizada por conceitos como identidade, indivíduo e tempo.

 

Não podemos terminar este editorial sem destacar as resenhas de Henrique Pinheiro Costa Gaio(a respeito de livro de Thiago Lima Nicodemo sobre a obra de Sérgio Buarque de Holanda) e de Rafael Fortes (tratando da obra de Scott Landerman sobre o surfe e suas articulações políticas). Também temos a satisfação de apresentar uma tradução cuidadosa de importante documento referente aos primeiros séculos da presença muçulmana na Península Ibérica. Mamede Jarouche nos brinda e oferece aos historiadores de língua portuguesa o relado da conquista de Alandalus segundo ʿAbdulmalik Bin Ḥabīb, presente no livro Kitāb Attārīḫ (“Livro de História”, século IX).


Finalmente, toda a equipe da TOPOI manifesta sua gratidão aos muitos anos de trabalho do professor João Fragoso junto à revista. Fragoso se desliga da TOPOI a partir deste número, encerrando uma cooperação direta que se iniciou ainda na fundação deste periódico. Seja como autor de artigos, como membro do comitê editorial ou em outras tantas funções, João Fragoso sempre imprimiu à sua atuação na revista a marca do brilhantismo, da seriedade e do rigor que caracterizam toda a sua trajetória intelectual. É uma grande honra para nós poder ter contado com sua colaboração. A TOPOI, grata a todos aqueles que, ao longo de muitos anos de trabalho, tornaram este periódico um veículo relevante da produção historiográfica brasileira, coloca-se à disposição de João Fragoso para novas formas de parceria.