Topoi. Revista de História
Volume 17, Número33 | Julho - Dezembro 2016




TOPOI. Revista de História, em seu número 33, segue a tradição de oferecer aos seus leitores um conjunto de textos que apresenta a marca da grande diversidade da produção historiográfica contemporânea. Os treze artigos aqui publicados abordam temas plurais, recorrem a documentos de naturezas distintas, operam com ferramentas e referências as mais diferenciadas e analisam fenômenos situados em períodos históricos também muito diversos.


Quatro artigos dedicam-se à análise de eventos anteriores ao século XVIII. Marcelo Moreira analisa os diálogos catequéticos coloniais a partir das condições que conferiam sentido a estes textos no momento de sua produção. São discutidos, assim, os preceitos retóricos que orientam a composição destes diálogos, a enunciação jesuítica, a fala dos indígenas e sua apropriação nos diálogos, a tensão entre modelo textual e performance, dentre outras questões que constroem uma interpretação erudita e rigorosa destes materiais. Maria Veronica Secreto, por sua vez, parte da análise da atuação de dois corsários franceses – capitães Carbonell e Le Bozec, que, em fins do século XVIII, atuavam no porto de Montevidéu – para discutir, de forma mais amplas, tensões entre comerciantes vinculados a Cádiz e ao Brasil. Relações sociais do espaço platino são, assim, reconstruídas com rigor pela autora.O Portugal pré-moderno recebe a atenção dos artigos de Maria Alice da Silveira Tavares e Bruno Feitler. Tavares dedica-se à análise de conflitos econômicos na Idade Média, observando os mecanismos de controle dos delitos nesta esfera e a atuação de conselhos medievais portugueses. A partir desta perspectiva, são estudados diferentes aspectos da vida urbana deste período. Já Feitler reflete sobre as estratégias de ascensão social de “oficiais menores” da Inquisição recorrendo a um estudo de caso. O texto acompanha a trajetória de um despenseiro da Inquisição de Lisboa, atentando-se para a importância dos palácios inquisitoriais como símbolos de afirmação social.


Passando para os artigos que concentram suas atenções em fenômenos localizados nos séculos XIX e XX, o texto de Sébastien Rozeaux apresenta-nos um panorama bastante diversificado de associações culturais portuguesas que atuavam no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. Concentrando suas atenções no Grêmio Literário Português e no Retiro Literário Português, o autor analisa as publicações promovidas por estas duas sociedades e, a partir disso, discute o papel delas na vida intelectual da capital do Império. Aristeu Lopes trabalha, em seu artigo, com as celebrações pelo aniversário da Lei Áurea na imprensa ilustrada do Rio de Janeiro nos primeiros anos da República. Assim, são discutidas as abordagens divergentes apresentadas pela Revista Illustrada e Don Quixote a respeito deste evento determinante dos últimos momentos da vida monárquica no Brasil. O peronismo é o tema do texto de Oscar Aelo, que privilegia a análise de um aspecto pouco estudado deste fenômeno tão relevante da vida política argentina: a constituição da organização partidária levada adiante pelos peronistas. São observadas as disputas no interior do Partido Peronista, que resultam em dois modelos de organização partidária distintos.


Ainda dentro deste grande recorte temporal, a revista traz dois artigos que se dedicam ao estudo de temas religiosos. Marcelo Timotheo da Costa discute o “São Francisco de Assis de Leonardo Boff”, analisando como a imagem do santo foi construída pelo então frade brasileiro em seu livro pelo qual precisou responder diante da Santa Fé. O São Francisco construído por Boff seria uma espécie de ícone da Teologia da Libertação, tornando-se um instrumento para a construção de um projeto de oposição à ordem católica no Brasil. Já o texto de Carlos André Silva de Moura apresenta-nos as reações do clero português às ações anticlericais da República proclamada no país em 1910. As aparições de Nossa Senhora de Fátima, em 1917, são lidas por Moura neste cenário de disputas religiosas, o que favoreceu à criação de uma cultura visionária em Portugal que se expandiu para o Brasil.


Finalmente, quatro artigos discutem diferentes problemas ligados à teoria da História. Jurandir Malerba aborda os debates em torno da narrativa histórica através de uma genealogia. Seu texto propõe o resgate de questões formuladas pela filosofia analítica anglo-saxônica à escrita da História que foram abandonadas com a emergência de perspectivas pós-estruturalistas e com as primeiras publicações de Hayden White. Malerba sustenta, assim, que esta retomada de antigas questões pouco desenvolvidas podem dar novos contornos a uma discussão ainda viva entre historiadores. Problemas ligados à escrita da História também são enfrentados por Naiara Ribeiro em seu texto sobre a correspondência entre Johan Huizinga e André Jolles. A pesquisadora atenta-se para as discussões, levadas adiante pelos dois autores, sobre a questão da forma, o que a permite tanto esclarecer alguns aspectos de suas trajetórias intelectuais como colaborar com o debate sobre a escrita historiográfica. Rodrigo Turin reflete outra dimensão determinante dos debates contemporâneos conduzidos pelos teóricos da História: a temporalidade. Para tal, seu artigo realiza uma análise comparativa de proposições de François Hartog e de Hans Ulrich Gümbrecht, identificando posturas disciplinares e éticas distintas, apesar dos tantos estudos que aproximam as categorias criadas pelos dois autores. O artigo de Vinícius Liebel, tomando como ponto de partida as proposições de Ralf Bohnsack, discute as possibilidades de análise de fontes pictóricas a partir do sentido documentário destas. A análise de uma charge exemplifica a potencialidade do estudo da historicidade das imagens, fazendo com que, a partir delas, possam ser debatidos posicionamentos diversos de seus produtores.


A revista publica ainda oito resenhas de livros que, nos últimos anos, repercutiram fortemente no ambiente da produção historiográfica. As obras resenhadas também pertencem a áreas diversas do conhecimento histórico, indo da iconografia política pela perspectiva de Carlo Ginzburg à história da alimentação, passando pelos regimes políticos no Egito contemporâneo e pela resistência de mulheres em Minas Gerais.


A equipe da Topoi, ao final deste editorial, cordialmente agradece a Diego Galeano, que colaborou conosco na produção de resumos em língua espanhola para artigos publicados em tantas edições anteriores. Informamos, também, a nossos leitores, que o professor Antonio Carlos Jucá de Sampaio deixa a editoria chefe da revista em breve, passando esta função para a professora Luiza Larangeira da Silva Mello. Registramos o nosso agradecimento e reconhecimento pelo trabalho dedicado do professor Jucá e desejamos sucesso à professora Luiza Larangeira na chefia da editoria da revista.