nº 37 / V. 19
Janeiro - Abril 2018
Artigos
Ordem jurídica, religião, direitos civis e a constituição do Império do Brasil
Neste trabalho procuramos discutir as relações entre religião e ordem legal, sobretudo, com vistas a mapear as condições para a construção da proteção jurisdicional oferecida pelo Estado Imperial ante o crescimento de populações acatólicas no Brasil. Sob a égide das diversas ideologias liberais que se apresentavam no país, acompanhamos a consolidação de uma ordem jurídica emanada dos debates parlamentares, que deram as feições ao exercício da cidadania no império.
Irmãos do Rosário e sectários da religião maometana: sociabilidades entre africanos no Recife oitocentista
Este artigo analisa as conexões religiosas entre africanos libertos que transitavam entre a Irmandade do Rosário dos Pretos de Santo Antônio e o culto islâmico no Recife do século XIX. Para os africanos que viveram as experiências de escravidão e de liberdade no Brasil, o pertencimento a mais de uma comunidade religiosa era relevante para assegurar seus arranjos políticos e sociais ou mesmo garantir a manutenção de sua cultura. Este foi o caso de algumas pessoas cujas trajetórias estão vinculadas ao Recife escravista. A proposta dessa discussão é abordar as conexões entre práticas e saberes de religiões africanas em meio ao catolicismo. As principais fontes de pesquisa foram testamentos e inventários post-mortem, jornais e registros paroquiais, que foram analisadas sob as lentes da microanálise italiana.
Apogeu e colapso dos grandes cacicados no sul da Argentina: estratégias de resistência e iminência de combate (1861-1872)
As relações sociais, políticas e econômicas entre indígenas e criollos no sul da Argentina foram marcadas, na segunda metade do século XIX, por aproximações e distanciamentos, acomodações e enfrentamentos, resistências e combates. Entre 1861 e 1872, deu-se o apogeu do poder dos grandes cacicados nos pampas e na Patagônia. Senhores das terras, controladores de parte considerável do comércio e defensores de suas soberanias, sabiam quem eram seus interlocutores e estavam bem informados sobre seus dilemas, debates, interesses e estratégias. Durante e após a Guerra do Paraguai, alteraram suas formas de organização social e política para estabelecer novos patamares de resistência ao Estado: uniram forças e atacaram antes de serem atacados. Este artigo discute os dilemas daquela época e os interesses indígenas no apogeu de seu poder.
Poder popular e expansão da república romana, 200-150 a.C
Foi durante a república (509-27 a.C.) que Roma transformou-se de cidade em império. Ao longo desse mesmo período, movimentos sociais em Roma levaram a um crescente envolvimento popular na política. Em que medida a hegemonia romana foi o resultado da agência política das massas? Este artigo discute o poder popular na República Média (c. 250-150 a.C.) e em que medida ele teria modelado a nascente hegemonia romana. Iniciaremos com uma apreciação do debate historiográfico sobre a participação popular na república, ressaltando duas vertentes principais, uma “oligárquica” e outra “democrática”. Em seguida enfocaremos algumas narrativas de Políbio e Tito Lívio, que nos oferecem pontos de partida para refletir sobre a existência de uma cultura política popular e seu papel na hegemonia romana nascente.
O bisneto do comendador: herança cultural e formação autodidata em uma trajetória no século XX
O artigo tem por objetivo compreender os processos de aproximação das culturas do escrito por um indivíduo autodidata, e suas práticas atuais de leitura e escrita. Trata-se de um estudo de caso emblemático, que possibilita problematizar questões que estão na base dos estudos sobre história e sociologia da leitura, sendo três as dimensões privilegiadas na análise: a) o pertencimento social e a não linearidade geracional no que se refere à participação na cultura escrita; b) as práticas autodidatas desenvolvidas para o domínio do sistema escrito; e c) o trânsito entre o oral, o escrito e as sociabilidades na apropriação das leituras. As práticas intelectuais desenvolvidas por esse indivíduo reforçam a necessidade de não considerarmos oralidade e escrita como polos dicotômicos, pois mostram, especialmente, que oral e escrito agem simultaneamente na formação das disposições sociais, resultando em usos específicos da escrita e da leitura.
Ressentimentos e estereótipos: ensaio sobre as representações a respeito do português no Brasil (século XIX)
Neste ensaio proponho uma hipótese para a construção da imagem do português no Brasil. No senso comum brasileiro, a imagem estereotipada de um português pouco inteligente é compartilhada nacionalmente, sendo substrato para piadas e referências pouco elogiosas aos sujeitos da ex-metrópole. Busco aqui uma interpretação possível para o surgimento dessas representações coletivas sem, contudo, procurar dar uma resposta que esgote todas as possibilidades.
Mil ódios contra si. D. Lourenço de Mendonça, bispo eleito do Rio de Janeiro, seu combate à escravidão indígena, sua deposição e seu destino entre duas monarquias
A expulsão do primeiro bispo eleito do Rio de Janeiro, em 1637, oferece ocasião para uma reflexão mais detida sobre as relações conflituosas entre os moradores da cidade e as autoridades eclesiásticas enviadas para cá. De fato, como o próprio bispo assegurou, foi seu insistente combate à escravidão indígena que causou seus dissabores. No entanto, numerosos registros históricos do episódio buscaram elidir a expulsão ou alterar significativamente seus motivos; como é o caso da monumental obra de Francisco Adolfo de Varnhagen, que vê no acontecimento um abuso do poder eclesiástico sobre as instituições civis. Esse tema criou memória que se expressa em um romance histórico publicado no século XIX. Em tempos mais recentes, o argumento abraçou os protestos da população local quanto à ação do bispo sobre temas da moral privada. Por consequência, um traço importante da cultura local — a escravidão indígena — sai do primeiro plano e mergulha no abandono e no esquecimento.
Vigilantes da moral e dos bons costumes: condições sociais e culturais para a estruturação política da censura durante a ditadura militar
Considerando a censura como parte de uma cultura da vigilância à liberdade de expressão, o artigo pretende demonstrar que, além de um eficaz instrumento de violação, quando se trata de defender a moral e os bons costumes, a censura consiste em um instrumento político de legitimação perante setores da sociedade civil, um endosso do Estado àquilo que é considerado pertinente aos valores da família cristã. A discussão será feita a partir da análise das condições sociais e culturais em que se deu o processo de estruturação política e institucionalização da censura de publicações consideradas ofensivas à moral e aos bons costumes durante a ditadura militar. O objetivo do artigo é contribuir com os estudos sobre as estratégias de poder e os comportamentos sociais diante do autoritarismo, a fim de compreender as bases sociais de sustentação do poder autoritário.
Colonização agrária no Brasil Central: fontes inéditas sobre as pesquisas de campo de Henry Bruman em Goiás, na década de 1950
Este artigo tem por objetivo apresentar as contribuições do geógrafo Henry Bruman para os estudos sobre colonização em zonas pioneiras do Brasil, com destaque para as pesquisas de campo em Goiás realizadas no início da década de 1950. Nossa pesquisa se fundamentou nos pressupostos teórico-metodológicos da geografia histórica e história ambiental na análise das diferentes fontes primárias e secundárias. Dentre o material pesquisado destacamos notas de campo, correspondências, fotografias e outros registros de Bruman sobre a fronteira em Goiás. Nossa pesquisa visa apresentar as heranças intelectuais da Berkeley School e outras conexões acadêmicas de Bruman que orientaram seus estudos lationoamericanos, e que são fontes privilegiadas para a compreensão dos processos de colonização nacional e estrangeira no Brasil Central.
Resenhas
Para compreender o antifascismo na América Latina
Resenha do livro: OLIVEIRA, Ângela Meirelles. Palavras como balas. Imprensa e intelectuais antifascistas no Cone Sul (1933-1939). São Paulo: Alameda, 2015.
“Resistência: memória da ocupação nazista na França e na Itália.” Uma perspectiva comparativa acerca do uso da memória
Resenha do livro: ROLLEMBERG, D. Resistência: memória da ocupação nazista na França e na Itália. São Paulo: Alameda, 2016.
